segunda-feira, 28 de junho de 2010

Prós e Contras: O Fim das SCUT

Prós e Contras debateu hoje (28 de Junho) a questão da introdução de portagens nas Scut: o PS e o PSD tentam chegar a um acordo para cobrar aos portugueses os custos dos erros governativos que cometeram nas últimas décadas. Jorge Lacão (Ministro dos Assuntos Parlamentares) afirmou que o tempo não é de divergência - a divida do país triplicou, de modo a lembrar ao PSD que o governo está empenhado na tarefa de alcançar entendimentos alargados com o maior partido da oposição. Miguel Macedo (PSD) respondeu-lhe, afirmando que o seu partido aceita uma negociação exigente sem cheque em branco. Fiel ao princípio do utilizador/pagador, o PSD foi sempre contra as Scut, responsabilizando o PS pela sua criação. É muito difícil tomar partido neste debate a dois, porque ambos são partidos da máfia nacional: a diferença entre eles é meramente semântica. O PS defende isenções ou discriminações positivas, enquanto o PSD prefere falar de comparticipações, mas ambos querem introduzir o dispositivo electrónico de matrícula (chip) e portagens nas Scut. O secretário de Estado defendeu o chip de matrícula com recurso ao exemplo dos países do Leste, o que evidencia a ambição totalitária deste governo e do PSD: escrutinar os movimentos dos cidadãos portugueses e vedar aos estrangeiros - em particular aos espanhóis - o acesso a Portugal. Além de serem partidos do sistema mafioso nacional, com vocação totalitária, o PS e o PSD revelam falta de imaginação política: a crise económica não lhes ensinou nada de novo, porque continuam a cometer os mesmos erros sistemáticos que nos levaram à situação de miséria presente.
Portugal está sem rumo: o tango dançado a dois - PS e PSD (Heitor de Sousa) - afunda-nos cada vez mais nas profundezas do abismo da miséria e da pobreza. As únicas intervenções que mereceram alguma credibilidade foram as de António Filipe (PCP) e de Heitor de Sousa (BE): os governos do PSD e do PS planearam mal as obras e fartaram-se de construir estradas, vias rápidas e auto-estradas, muitas das quais foram construídas com dinheiros comunitários. Para fazer frente ao endividamento externo do país, sob coacção da Comissão Europeia, o PS e o PSD estão a converter as estradas em bens de luxo, forçando o país a viver da economia das estradas que não pode ser exportada, e tornando os pobres cada vez mais pobres para pagar a crise que geraram. Carlos Alberto Amorim retomou o protesto de Rui Rio e falou da revolta das portagens: os portugueses precisam vencer o medo e revoltarem-se contra o actual sistema partidário. A actual conjuntura política, económica e social é favorável à emergências de novos partidos políticos que saibam interpretar o verdadeiro interesse nacional: o PS e o PSD não merecem a confiança dos portugueses. Com estes dois partidos Portugal não tem futuro: os ricos estão cada vez mais ricos, e os pobres, mais pobres. A revolta das portagens, sobretudo no norte que este governo quer penalizar, é a nossa oportunidade para renovar Portugal e livrá-lo do domínio total. A vocação totalitária do actual PS envergonha-me: os utilizadores das Scut devem recusar pagar as portagens e converter esse protesto em acto político revolucionário.
J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Vinicius de Moraes: A Morte

O poema A Morte de Vinicius de Moraes pode ser visto como a chave que nos permite aceder ao lugar donde fala toda a sua poesia: descobrir esse lugar é entrar pela porta principal na lusofonia. O que é a lusofonia?: eis a questão que os utentes da língua portuguesa evitam colocar e procurar dar-lhe cooperativamente uma resposta. Os utentes da língua portuguesa matam a morte por medo da vida: matar a morte por medo da vida define o comportamento destes homens fratricidas que falam a língua portuguesa. O poema de Vinicius de Moraes não fala da morte esperada que vem de longe para os "meus olhos" - a minha morte - e para os "teus olhos" - a tua morte - ou mesmo para os olhos do outro - a morte do outro, mas sim da morte da própria morte: o acto desesperado dos homens que temem a vida, a vida da lusofonia. Eis o poema:
«A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.» (Vinicius de Moraes)
J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 22 de junho de 2010

Prós e Contras: Visões do Futuro

Prós e Contras debateu hoje (21 de Junho) o futuro da Europa e de Portugal. Mário Soares, António Vitorino, Ângelo Correia e Boaventura Sousa Santos protagonizaram visões diferentes neste debate moderado por Fátima Campos Ferreira, mas partilharam o mesmo desígnio: esclarecer os portugueses e travar a grande batalha do futuro de Portugal no seio de uma Europa refundada. Fátima Campos Ferreira colocou duas questões: O que vai acontecer à Europa?, O que vai acontecer a Portugal?. Estas duas questões estão intimamente ligadas entre si, porque nenhum dos participantes concebe o futuro de Portugal fora do quadro da União Europeia. Como disse António Vitorino, o ponto de equilíbrio só pode ser alcançado ao nível europeu: quer dizer que não há soluções nacionais para a crise profunda em que vivemos, uma crise desencadeada pelo triunfo do neoliberalismo e do capitalismo financeiro. Engels captou a temporalidade predominante do capitalismo a partir da sua lógica da busca de lucros imediatos: a perspectiva da lucro imediato priva o capitalismo de uma visão de futuro. O capitalismo não tem futuro: a noção de eternidade - o eterno presente - que se instalou nas sociedades europeias com o triunfo do neoliberalismo mostra a aversão natural do capitalismo pelo futuro. A economia de mercado é incapaz de pensar o futuro novo ou mesmo de respeitar o passado e o seu legado, sacrificando-os no altar de um eterno presente autodestrutivo: a grande política é aquela que supera o imediatismo fatalista da economia e ousa sonhar o futuro novo.
A Europa. A questão europeia não foi completamente consensual, não tanto por causa da visão de futuro para a Europa, mas sobretudo por causa do diagnóstico da própria crise europeia. Embora todos tenham reconhecido que a Europa está a atravessar uma crise profunda (Mário Soares), houve algumas divergências ou clivagens quanto às razões que conduziram a esta crise. Mário Soares denunciou o mau comportamento da Alemanha que, ao entrar tarde e ao decidir tarde, gerou a actual crise europeia. Boaventura Santos responsabilizou a Alemanha pela crise europeia, advogando que os países do sul não devem pagar as suas dívidas públicas. Mas esta solução não foi aceite por Ângelo Correia e António Vitorino. Para Ângelo Correia, ir buscar dinheiro ao estrangeiro, em especial à Alemanha, para consumir aquilo que não se produz internamente, não é solução. A Europa encontra-se no meio da ponte (Ângelo Correia): ou avança para o futuro novo ou recua para os nacionalismos bárbaros. A solução construtiva e produtiva só pode ser refundar a Europa (Ângelo Correia, Mário Soares): a união política da Europa é fundamental para a união económica e monetária. Porém, o desacordo surgiu quando os participantes foram confrontados com a questão dos agentes da mudança: a crise das lideranças europeias bloqueia o futuro. Como podemos sonhar e realizar o futuro novo com estas elites medíocres? Mário Soares acredita que vai haver gente para refundar a Europa: as lideranças fortes aparecem nos momentos de dificuldade, como testemunha a história recente, mas Boaventura Santos não acredita que as novas elites possam surgir no vazio. A história mostra que as elites surgem a partir de movimentos sociais. Ora, a Europa que foi construída sem a participação das pessoas (Ângelo Correia) adormeceu nestas últimas décadas, pensando que o Terceiro Mundo era lá fora (Boaventura Santos), quando na verdade ele está, neste mundo global - entregue à imprevisibilidade dos mercados financeiros, aqui mesmo na Europa, na medida em que o neoliberalismo procura destruir o nosso modelo social europeu. Ser europeísta é ser contra o controle dos mercados financeiros. Mário Soares defende o desaparecimento do capitalismo financeiro. A política não pode ser refém da economia e os políticos devem libertar-se da sua dependência da economia. Mas esta não é realmente a perspectiva de Mário Soares: ao negar que a política - isto é, a imaginação política - está efectivamente refém da economia, Mário Soares esquece que o neoliberalismo é precisamente a política refém da economia. A escolha entre ser um museu ou projectar um futuro novo - com base na ciência, na tecnologia e na cultura - proposta por Ângelo Correia está mais de acordo com o espírito que move a Esquerda genuína. A Europa que foi construída até aqui sem a participação dos cidadãos europeus deve ser refundada e reinventada escutando a voz da cidadania europeia silenciada pelos eurocratas.
Portugal. Mário Soares recordou que, depois da descolonização, a Europa era o único destino para Portugal. A decisão de entrar na União Europeia e na zona Euro foi, portanto, uma decisão histórica de futuro: Somos um país europeu, estamos na Europa e queremos ser Europa, como disse António Vitorino. Mas, para garantir o nosso futuro europeu, precisamos resolver a nossa própria crise estrutural, agravada pela crise mundial, porque, como frisou Ângelo Correia, a nossa crise não foi inteiramente exportada do estrangeiro (Mário Soares). Portugal precisa elaborar uma visão de futuro: o ajustamento das contas públicas não é suficiente para nos livrar da crise e nos garantir um mundo melhor. Não há crescimento económico sem acesso ao crédito, o que acarreta o aumento galopante do nosso endividamento, mas como na actual situação este acesso vai ser cada vez mais difícil, torna-se necessário definir prioridades (António Vitorino), tendo como pano de fundo um acordo estratégico sobre o sentido geral do país que envolva todos os portugueses, governantes e governados. O optimismo militante de Mário Soares leva-o a negar algumas evidências: o facto de Portugal ser um país pequeno - em termos de território e em termos demográficos - e relativamente atrasado, sobretudo no plano cultural. Aquilo que Mário Soares diz que já somos é aquilo que pretendemos ser num futuro próximo: fazer do futuro almejado o já presente realizado é fechar as portas ao futuro novo. O optimismo de Mário Soares - lamento dizê-lo - cheira-me a conservadorismo - a apologia do instituído e a conservadorismo de legado próprio: o 25 de Abril só pode ser legitimamente nomeado para iluminar a acção que visa transformar qualitativamente a sociedade portuguesa, reinventando-a constantemente. Para alcançar o aumento da produtividade e das exportações e o fortalecimento do mercado interno (António Vitorino), precisamos reinventar a sociedade portuguesa, mudando de métodos e de comportamentos (Ângelo Correia). Só a reinvenção da sociedade portuguesa - a partir de um imaginário radical instituinte - pode garantir e fortalecer a nossa ancora na Europa e, ao mesmo tempo, alargar os nossos braços até às Américas - em especial ao Brasil e aos USA, à África - Angola e Moçambique, ou mesmo à Ásia - China. Descobrir mundo é o único meio que dispomos para influenciar a Europa: a nossa grandeza reside - e sempre residiu - no descobrimento do mundo: cultivar a lusofonia é uma prioridade portuguesa (Mário Soares).
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Os Toltecas e Tula

As grandes cidades clássicas do México - Xochilcalco, Monte Albin, El Tajin, Teotenango e, em especial, Teotihuacán cujo declínio começou no século VIII - foram pouco a pouco abandonadas entre os séculos IX e XI: os povos de língua náhuatl entram finalmente em cena, vindo a desempenhar um papel predominante na história do México. Oriundos do Norte, os toltecas fundaram a sua cidade - Tula - em 856 d.C.: os primeiros imigrantes toltecas, ainda bárbaros e pouco numerosos, aceitaram durante mais ou menos um século a hegemonia da classe sacerdotal originária de Teotihuacán e fiel à tradição teocrática da era clássica da história do México. Os relatos histórico-míticos do rei-sacerdote Quetzalcóatl - a Serpente Emplumada - fornecem alguma consistência a esta coexistência pacífica: além de falar uma língua diferente do náhuatl, o rei-sacerdote proibia os sacrifícios humanos, celebrava o culto do deus da chuva e era profundamente bom e virtuoso em todas as circunstâncias. Porém, a chegada de sucessivas vagas migratórias provenientes do norte acabou por romper este equilíbrio frágil: o ciclo épico de Tula relata uma série de conflitos, de guerras civis e de encantamentos, graças aos quais Tezcatlipoca conseguiu banir Quetzalcóatl em 999. O rei derrotado parte para o exílio em direcção ao misterioso "país negro e vermelho" - Tlillan Tlapallan, supostamente situado além do "mar divino", por trás do horizonte oriental. Os Templos Toltecas deixaram de ser santuários de dimensões reduzidas onde só entravam os sacerdotes e passaram a integrar amplas salas com colunatas onde os guerreiros se reuniam em torno do monarca: o rei, emanação da aristocracia militar privilegiada, detém, juntamente com a sua elite guerreira, os poderes que na era clássica pertenciam à classe sacerdotal. Do Planalto Central do México, a civilização tolteca irradiou-se para o oeste, até Michoacán, para o leste, até às costas do Golfo do México, e para o sudeste, até às montanhas de Oaxaca e o Yucatán.

A fase de expansão de Tula vai de 950 a 1150 d.C. e corresponde ao chamado horizonte mazapa - a cerâmica típica deste período: Tula era nesta altura uma grande cidade que cobria aproximadamente treze quilómetros quadrados. As escavações de Charnay e de Jorge Acosta, bem como o Projecto Tula da Universidade de Missouri, permitem identificar três centros cerimoniais principais: o centro mais antigo, conhecido como Tula Chico, um segundo centro chamado Plaza Charnay e o principal grupo de monumentos, a acrópole. A acrópole é formada por uma ampla praça central, flanqueada no lado este pela estrutura conhecida como Edifício C, no lado oeste pelo campo do jogo da bola, explorado por Eduardo Matos, e no lado norte pela pirâmide principal, o Templo de Quetzalcóatl, em cuja parte superior estão os famosos atlantes (ver imagem). A entrada do templo é marcada por uma grande colunata reconstruída por Acosta, e os atlantes que rematam a pirâmide sustentavam o tecto de vigas do templo: os atlantes representam o deus da Serpente Emplumada enquanto personificação de Vénus, a Estrela da Manhã, estando vestido de guerreiro e armado com o atlalt, que não é uma pistola de raios laser, trazida para Tula por um extraterrestre, como supõe Erich von Däniken, mas um mero lança-dardos ou flechas. O culto a Vénus como uma personalidade dual - as Estrelas da Manhã e da Tarde - desempenhou um papel fundamental na religião dos antigos mexicanos: Quetzalcóatl, como Estrela da Manhã, era um guerreiro que nos códices aparece com raios róseos e brancos sobre o corpo, que supostamente representavam os prisioneiros de guerra destinados ao sacrifício. Tal como foi adoptado pelos toltecas, Quetzalcóatl realiza actos de sacrifício humano, sendo algumas vezes representado a arrancar os olhos de um prisioneiro. Em Tula, Quetzalcóatl foi guerreiro e divindade tutelar de uma sociedade guerreira, tão ligada ao sacrifício como qualquer outro deus tolteca. As guerras travadas pelos soldados toltecas serviam para obter tributo e, ao mesmo tempo, cativos para os altares dos seus deuses: o muro de crânios de Tula sugere que o sacrifício fazia parte do processo de guerra e de conquista. Nas fachadas da grande pirâmide estão esculpidos frisos nos quais há procissões de jaguares alternadas com águias que mordiscam corações sangrentos, e, atrás do templo, encontra-se o Muro da Serpente (Coatelpantli), cujos relevos mostram uma série de serpentes a devorar corpos humanos inteiros, com os crânios fora da boca. Situado a norte da praça principal, encontra-se o Corral, cuja parte central redonda é dedicada à Serpente Emplumada: o seu pequeno altar tem um friso esculpido que mostra a procissão de guerreiros toltecas, abaixo da qual aparece a inevitável fileira de crânios. A cultura artística tolteca revela uma dedicação total à guerra e o Estado tolteca era motivado pela necessidade de impor tributo, em particular na forma de bens sumptuosos como o jade, as plumas e as peles de ocelote, para sustentar o rei e o seu palácio e enriquecer a elite militar. Em 1168, a cidade de Tula sucumbe às dissensões internas e à invasão de novos imigrantes provenientes do norte, entre os quais os astecas da longínqua Aztlán, acabando por ser saqueada e abandonada.

Sobre a civilização tolteca aconselho os seguintes livros:

Davies, Nigel (1977). The Toltecs: Until the Fall of Tula. Norman, Okl.: University of Oklahoma Press.

Davies, Nigel (1980). The Toltec Heritage: From the Fall of Tula to the Rise of Tenochtitlan. Norman, Okl.: University of Oklahoma Press.

Diehl, Richard A., org. (1974). Studies of Ancient Tollan: A Report of the University of Missouri Tula Archaelogical Project. Columbia, Missouri: University of Missouri Press.

Matos, Eduardo, org. (1974). Proyecto Tula, 2 vols. México: Instituto Nacional de Antropología e Historia.

Séjourné, Laurette (1962). El Universo de Quetzalcóatl. México: Fondo de Cultura Económica.

Thompson, Eric (1982). História y Religión de los Mayas. México: Siglo XXI.

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Teotihuacán: a Cidade dos Deuses

Teotihuacán - o lugar onde os deuses foram feitos ou, como prefere dizer Sahagún, o «lugar en que los hombres se convertieron en dioses» - teve uma fase pré-histórica ou pré-monumental, aproximadamente de 600 a 200 a.C., durante a qual foi ocupada por pequenos grupos de aldeões agrícolas que lavravam a terra, caçavam animais nos campos despovoados e pescavam no lago Texcoco. Na última parte deste período, foi criada uma aldeia muito grande - um aglomerado de pequenas construções separadas por espaços abertos -, que cobria 6 quilómetros quadrados, principalmente na zona nordeste da futura cidade. Porém, muito antes da descoberta desta fase aldeã, a história da cidade já tinha sido dividida pelos arqueólogos mexicanos em quatro épocas ou eras: Teotihuacán I, Teotihuacán II, Teotihuacán III e Teotihuacán IV, que correspondem na terminologia norte-americana às fases Tzacuali, Miccaotli e Tlamimilolpa, Xolalpan e Metepec, respectivamente. Teotihuacán, com as suas enormes Pirâmides do Sol e da Lua, a sua Avenida dos Mortos, os seus Templos dos deuses agrários e da Serpente Emplumada, a sua magnífica Cidadela, as suas esculturas e frescos, as suas máscaras de pedra dura e a sua magnífica cerâmica pintada, foi uma grande metrópole teocrática e pacífica, cuja influência se alastrou até à Guatemala. A sua aristocracia sacerdotal era originária da costa oriental, da zona dos olmecas e de El Tajín. A religião compreendia o culto do deus da água e da chuva - o deus Tlaloc dos astecas, da Serpente Emplumada - Quetzalcóatl, e da deusa da água - Chalchiuhtlicue. As pinturas murais mostram que os habitantes de Teotihuacán acreditavam na vida além da morte, num paraíso onde os bem-aventurados cantariam a sua felicidade entre jardins tropicais resguardados e protegidos por Tlaloc.
Teotihuacán I. Este período vai de 200 a.C. até ao princípio da nossa era e marca o nascimento de uma verdadeira cidade: a cidade adquiriu a sua forma definitiva durante este período, estando orientada rigidamente no eixo norte-sul da Calzada de los Muertos, com 1.700m de comprimento, mais precisamente numa linha com um desvio de 15º30' do norte. A população do campo começou a diminuir por causa da política deliberada de concentrar as pessoas dentro dos limites urbanos. Nas fases finais de Teotihuacán I, viviam na cidade entre 40 000 e 50 000 habitantes, a maior parte dos quais se concentrava na zona nordeste do seu perímetro urbano. Porém, o que merece especial destaque neste período é a construção dos edifícios mais espectaculares de todos: as Pirâmides do Sol e da Lua. A Pirâmide do Sol (imagem) foi construída ininterruptamente e é a construção mais alta do México antigo: a sua base quase quadrada - 222 por 225m - é tão grande como a da Pirâmide de Quéops no Egipto, embora não seja tão alta. A Pirâmide da Lua - que escapou à demolição arbitrária de Leopoldo Batres (1908), com a utilização de dinamite - compreende quatro grandes plataformas em talude que sustentavam um templo em cima. Tem 35m de altura, mas como foi construída em terreno mais elevado que a Pirâmide do Sol, que é muito mais alta (64m), os seus topos ficam ao mesmo nível. O principal eixo da cidade é a Avenida dos Mortos - uma espécie de via sacra desenhada para impressionar aqueles que a contemplam e fazê-los captar o poder e a glória dos deuses da cidade: a Pirâmide da Lua domina o extremo setentrional da Calzada, mas a sul passa ao lado da Pirâmide do Sol, da qual está separada por uma ampla praça, e, depois de cruzar o rio San Juan, chega ao complexo conhecido como "La Ciudadela". Durante as escavações arqueológicas, em especial as de 1935, identificaram-se 23 complexos de templos que correspondem a Teotihuacán I, cada um dos quais formado por três templos construídos em torno de um pátio fechado, algumas vezes com uma plataforma baixa a fechar o quarto lado. Muitos desses templos estão localizados ao longo da Calzada de los Muertos. (Veja imagem aqui.)
Teotihuacán II. O segundo período da história de Teotihuacán vai do começo da nossa era até 350 d.C., tendo presenciado ao progresso da cidade-Estado até à sua conversão final numa grande metrópole com amplas ramificações. A construção mais notável deste período é o Templo de Quetzalcóatl, famoso pela sua fachada esculpida com cabeças de serpente. O grande complexo situado no lado oposto da Calzada de los Muertos também corresponde a esta época e devia funcionar como mercado principal da cidade. As construções da Pirâmide da Lua e da Praça da Lua foram concluídas neste período. Teotihuacán já era - nesta altura - uma grande cidade que exercia uma poderosa influência em todo o México antigo: o seu estilo de vida urbano atraia grupos de pessoas de outras regiões. Os seus limites cobriam a sua área máxima de 20 quilómetros quadrados e a planta rigorosamente planeada adquiriu a sua forma final: o plano-mestre de Teotihuacán precisou de vários séculos para ser realizado e esteve sujeito a modificações ocasionais. A grande marca deste período é, além da arquitectura, a sua escultura monumental e a cerâmica conhecida como "anaranjado delgado", fabricada em barro fino alaranjado, polido e tão delgado como a casca de um ovo.
Teotihuacán III. O terceiro período é a época - 350 a 650 d.C. - em que a cidade alcançou o apogeu do seu poder e a sua população cresceu até atingir quase 200 000 habitantes. Construíram-se numerosos edifícios monumentais, cujas ruínas podemos ver hoje em dia: os novos edifícios foram construídos sobre outros mais antigos, o Templo de Quetzalcóatl foi coberto por um edifício maior e menos ornamentado, e novas estruturas foram acrescentadas à Pirâmide da Lua, em harmonia com a imponente praça desta época - a Plaza de la Luna - que se encontra à sua frente. Muitas das construções deste período foram restauradas durante o programa de trabalho que o Instituto Nacional de Antropología do México levou a cabo entre 1962 e 1964, sob a direcção de Ignacio Bernal. Durante estas escavações, descobriram-se numerosas pinturas murais que pertencem basicamente a este período de apogeu de Teotihuacán. A parte nordeste da cidade - a mais densamente povoada - sofreu poucas alterações no decorrer deste período e, por isso, ficou conhecida como a "ciudad vieja" (cidade velha). Nas proximidades do Templo de Quetzalcóatl, foi construído o Palácio da Borboleta-Quetzal - Quetzalpapálotl, que foi restaurado nos anos 60. Está situado atrás de uma grande plataforma no lado ocidental da Plaza de la Luna e, para lá chegar, é preciso atravessar um pátio formado por 12 pilares quadrangulares, que têm relevos em pedra de grande conteúdo simbólico e estão adornados com criaturas que são em parte passáros e em parte borboletas. O Palácio cobriu uma estrutura mais antiga: o Templo dos Jaguares, em cuja pintura mural aparece o felino.
Teotihuacán IV. O último período começou em 650 d.C. e foi muito mais breve que os dois períodos anteriores, tendo durado apenas um século. No final deste período, os edifícios foram queimados e destruídos com violência. A esta catástrofe sucedeu o colapso da cidade: a população foi dispersada e o vale circundante continuou a ser cultivado. As aldeias descobertas nesta região já pertencem ao período tolteca e, até à época dos astecas, a capital desta região foi o povoado de Otumba. O imperador asteca Moctezuma II e os seus sacerdotes faziam ofertas no altar da Pirâmide do Sol, o que indica - se for verdade - que o perímetro de Teotihuacán não foi completamente abandonado: a descoberta de um pequeno santuário, associado com a cerâmica asteca, em frente da Pirâmide do Sol, confirma a presença asteca, bem como a existência de aldeias anteriores à conquista espanhola.
Sobre a civilização clássica de Teotihuacán aconselho as seguintes obras:
Blanton, Richard E. (1978). Monte Alban: Settlement Plans at the Ancient Zapotec Capital. New York: Academic Press.
Kubler, George (1973). The Iconography of the Art of Teotihuacan. Washington, D.C.: Dumbarton Oaks.
Miller, Arthur (1973). The Mural Painting of Teotihuacan. Washington, D.C.: Dumbarton Oaks.
Pasztory, Esther (1974). The Iconography of the Teotihuacan Tlaloc. Washington, D.C.: Dumbarton Oaks.
Sanders, William T. (1965). The Cultural Ecology of the Teotihuacan Valley. Pennsylvania: Pennsylvania State University.
Whitecotton, Joseph W. (1977). The Zapotecs. Norman, Okl.: Oklahoma University Press.
J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 15 de junho de 2010

Orientação Sexual e Dimensões do Pénis

Bogaert & Hershberger (1999) estudaram a associação entre orientação sexual e as dimensões do pénis numa amostra constituída por 5122 homens — 935 homossexuais e 4187 heterossexuais, que tinham sido entrevistados pelo Kinsey Institute for Research in Sex, Gender and Reproduction, de 1938 a 1963. As dimensões do pénis foram obtidas usando cinco medidas do comprimento e da circunferência do pénis do protocolo original de Kinsey. Em todas estas medidas, os homens homossexuais exibiram maiores dimensões penianas que os homens heterossexuais. As médias das cinco medidas nos homens homossexuais foram as seguintes: estimated erecte penis size (6,32), measured flaccid penis size (4,10), measured erect penis size (6,46), measured circumference of flaccid penis (3,84) e measured circumference of erect penis (4,95); nos homens heterossexuais, seguindo a mesma ordem, os valores das médias foram 5,99, 3,87, 6,14, 3,70 e 4,80 polegadas.
Bogaert (1997), usando uma amostra de 6544 homens não-delinquentes, oriunda do Kinsey Institute e seguindo o protocolo Kinsey, examinou a assimetria genital, tendo verificado que a maioria dos homens relatou algum grau de assimetria lateral nos seus pénis flácidos e testículos. Assimetria menor foi relatada em relação aos pénis erectos. A assimetria ocorre tipicamente na direcção esquerda e este padrão-esquerdo não parece estar dependente do uso da mão direita ou da mão esquerda, embora fosse significativamente menos pronunciado nos canhotos. Ora, parece existir uma relação entre assimetria genital e assimetria cerebral funcional e alguns estudos sugerem que a assimetria genital poderá predizer padrões de desempenho cognitivo e cancros dos órgãos genitais e sexuais. Nos mamíferos, o tamanho das gónadas difere em tamanho, sendo a gónada direita tipicamente maior que a gonáda esquerda. Mittwoch & Mahadevaiah (1980) confirmaram esta diferença em fetos humanos, tanto nas gónadas masculinas (testículos) como nas gónadas femininas (ovários). Nos homens adultos, o testículo direito é, em média, maior que o testículo esquerdo. Graças à utilização do ultra-som, determinou-se o tamanho dos ovários em mulheres vivas: Mittwoch & Mahadevaiah observaram que, nos hermafroditas humanos, existe uma maior tendência para os ovários estarem do lado esquerdo e os testículos do lado direito. Esta descoberta sugere a possibilidade de existir um certo incremento funcional do ovário esquerdo e do testículo direito nas mulheres e nos homens normais, respectivamente. Ao contrário das expectativas, os dados recolhidos por Gerendai (1987) sugerem que cada gónada exerce uma influência neuronal sobre o hipotálamo ipsilateral do cérebro, provavelmente através do nervo vago: a gónada esquerda parece exercer uma influência maior sobre o hipotálamo esquerdo e a gónada direita sobre o hipotálamo direito. O hipotálamo exerce um controlo essencialmente ipsilateral sobre o sistema nervoso autónomo, responsável pela coordenação do funcionamento das glândulas mamárias. Infelizmente ainda não possuímos estudos que demonstrem estas diferenças em função da orientação sexual.
Um Estudo Português. Os estudos contemporâneos sobre a homossexualidade masculina tendem a omitir as diferenças existentes entre os homens homossexuais, privilegiando as médias em detrimento das distribuições. No entanto, existem diferenças significativas entre os homens homossexuais, uma das quais diz respeito ao seu grau de efeminamento ou de atipicidade sexual: os próprios homens gay autoclassificam-se em dois grupos, o dos efeminados e o dos não-efeminados, associando-os a determinadas preferências sexuais. Em termos de comportamentos, os grupos de homossexuais efeminados partilham algumas características em comum: desvalorizam a masculinidade em si próprios e sobrevalorizam a masculinidade nos outros que encaram como parceiros sexuais ideais. Privados de modelos de comportamento positivos, os homossexuais efeminados interiorizam facilmente a definição social do maricas imposta pela ideologia heterosexista, da qual resulta a sua identificação com o padrão cultural de feminilidade e, consequentemente, a desvalorização da sua masculinidade, que se atenua à medida que se transita do maricas para o agrupado, passando pelo agitado e pelo enfastiado, respectivamente. No fundo, podemos definir o grupo dos homossexuais efeminados como o conjunto de indivíduos do sexo masculino que desvalorizam a masculinidade em si próprios e que a sobrevalorizam nos outros com quem desejam estabelecer contactos sexuais, ou então, o que vai dar ao mesmo, que valorizam a feminilidade em si próprios e que a desvalorizam nos seus potenciais parceiros sexuais. A desvalorização e a sobrevalorização da masculinidade, tal como é vivida pelos homossexuais efeminados, reflectem não só uma dependência em relação à ideologia heterosexista, como também constrangimentos genéticos e neuro-endócrinos: a sua preferência sexual pelo papel de receptor oral e anal e a desvalorização da sua própria masculinidade são sinais indubitáveis do seu efeminamento precoce, ou seja, da sua desmasculinização precoce. Ora, os homossexuais masculinos em geral e os efeminados em particular têm perfeita consciência da associação negativa entre atipicidade sexual e atractividade sexual. Com efeito, quanto maior for o grau de efeminamento ou de atipicidade sexual exibido pelos homossexuais maior será a probabilidade de serem marginalizados pela comunidade gay e, consequentemente, de fracassarem romanticamente, o que tem consequências negativas para sua saúde mental.
Do mesmo modo, mas inversamente, os grupos de homossexuais masculinizados partilham alguns traços em comum: valorizam a masculinidade em si próprios e nos outros. Embora todos tenham interiorizado de algum modo o padrão de masculinidade instituído pela sociedade heterosexista, essa interiorização fortalece-se e reforça-se à medida que se passa do emergente ao hipermasculino, passando pelo normalizado e pelo encoberto, respectivamente. Podemos definir o grupo dos homossexuais masculinizados como o conjunto dos indivíduos do sexo masculino que valorizam a masculinidade em si próprios e nos outros, ou, o que vai dar ao mesmo, que desvalorizam a feminilidade em si próprios e nos outros. A valorização da masculinidade em si próprios e nos outros, tal como é vivida pelos homossexuais masculinizados, implica a rejeição natural do estereótipo social do maricas e a afirmação da sua condição masculina, que se manifesta de modo plural na criação de novas masculinidades, algumas mais masculinas do que as exibidas pelos homens heterossexuais.
Como demonstra a análise dos anúncios íntimos, a maior parte dos homens homossexuais tende a «medir» e a «avaliar» a masculinidade e a atractividade dos seus potenciais parceiros sexuais em função do tamanho do pénis ou da avaliação que fazem do seu «papo»: um homem é assim tanto mais masculino e atractivo quanto maiores forem as dimensões reais ou aparentes do seu pénis. Ora, dado que desvalorizam a sua própria masculinidade, os homossexuais efeminados tendem a encobrir, de diversos modos, os seus órgãos genitais, como se não quisessem ser dotados de órgãos genitais masculinos. Alguns chegam ao ponto de, numa relação sexual, não querer mostrar ao seu parceiro sexual os seus órgãos genitais, com excepção do ânus. Geralmente, os homossexuais efeminados «não fazem uso do seu pénis», pelo menos nas relações sexuais que estabelecem com os seus parceiros ocasionais, provavelmente porque não se orgulham do tamanho do seu pénis. Poderá o tamanho do pénis funcionar como um dos critérios que permite diferenciar as homossexualidades masculinas? A moderna ideologia gay destaca essa diferenciação interna em função do tamanho do pénis: os homens gay estão convencidos de que os mais masculinizados têm pénis maiores que os efeminados, apesar da existência de algumas excepções. Esta classificação gay foi confirmada parcialmente pelo estudo de A. Bogaert & S. Hershberger (1993): os homens homossexuais têm, em média, pénis maiores que os homens heterossexuais. Esta diferença é atribuída às variações dos níveis hormonais pré-natais, ou a outro mecanismo biológico capaz de afectar as estruturas reprodutivas e, por conseguinte, o desenvolvimento da orientação sexual. Porém, estes resultados só levam em conta a orientação sexual: as médias eclipsam as distribuições e, sobretudo, as variações internas que podem estar relacionadas com outros traços ou marcadores comportamentais.
Com base unicamente nos dados recolhidos durante a minha pesquisa de terreno, posso afirmar com segurança que os homossexuais masculinizados são os únicos homossexuais que executam exibições fálicas e, na maior parte dessas exibições, o falo exibido é de grandes dimensões. Este é um traço comportamental tipicamente masculino que os homossexuais activos partilham com os homens heterossexuais, como observei no decorrer da pesquisa interactiva sobre cibersexo: exibicionismo, voyeurismo, papel activo desempenhado na corte e tendência a desempenhar o papel de introdutor oral e anal são traços típicos dos homossexuais masculinizados. Estas diferenças observadas entre os homens gay podem reflectir diferenças biológicas - genéticas e/ou neuro-hormonais, sem no entanto eclipsar a atracção sexual: todos os homens gay valorizam pénis grandes: «Gostar de pénis» é, como eles próprios o reconhecem, sinónimo de «ser homossexual». A diferença que se constata entre eles, é que uns desvalorizam essa virilidade em si próprios, sobrevalorizando-a nos seus potenciais parceiros sexuais, enquanto outros a valorizam tanto em si próprios como nos seus companheiros sexuais, mesmos que estes apresentem outros comportamentos efeminados.
Com base nas classificações emic, coloca-se a questão de saber qual a associação existente entre o tamanho do pénis e a orientação sexual masculina. Esta questão foi sempre removida do meu horizonte de pesquisa sistemática dos comportamentos, dado que todos os homens homossexuais, independentemente do tipo a que pertencem, valorizam muito os pénis grandes, como se as grandes dimensões do pénis acrescentassem uma mais-valia erótica à masculinidade ou à virilidade dos seus portadores. O Professor Doutor Marini de Abreu tinha-me sugerido a medição dos pénis dos indivíduos homossexuais, na expectativa destes serem menores que os pénis dos homens heterossexuais, mas, na altura, esse estudo não foi realizado. Como vimos, os homens homossexuais efeminados, sobretudo os hiperefeminados, valorizam mais os pénis grandes dos seus potenciais parceiros sexuais que os seus próprios pénis, ao passo que os homens homossexuais masculinizados, sobretudo os hipermasculinos, valorizam sobretudo os seus próprios pénis grandes e, em menor grau, os dos seus parceiros sexuais, alegando que os homossexuais efeminados pensam de maneira diversa porque têm geralmente pénis pequenos. Apesar destas indicações reais, a questão não me parecia tão clara como os outros suponham, por várias razões: primeiro, porque existem homossexuais efeminados que possuem pénis de grandes dimensões, embora tendam a ter pénis menores do que os homossexuais hipermasculinizados; segundo, porque existem homossexuais hipermasculinizados que possuem pénis de tamanho médio ou mesmo de modestas dimensões, embora tendam a ter pénis maiores e mais potentes sexualmente do que os homossexuais efeminados; e terceiro, porque existem entre os machos heterossexuais pénis de pequenas, médias e grandes dimensões, embora tendam a ter pénis menores que os machos homossexuais. Sempre pensei que estas razões fossem suficientes para remover a questão até ao momento em que, durante a pesquisa interactiva, prolongada até 2007, fui novamente confrontado com este problema. Os homossexuais passivos, sobretudo os «menos discretos», claramente efeminados, além de assumirem desde logo a sua passividade «a 100%» e de dizer que queriam «ser possuídos» naquele preciso momento, perguntavam sempre pelo tamanho do pénis do seu «amigo virtual», mas, quando a questão lhes era devolvida, respondiam simplesmente, quando não desligavam a «janela»: «O que interessa isso...». Eles agem como se não tivessem pénis. Conversando com os seus parceiros, fiquei a saber que a maior parte deles pratica sexo oral noutros, muitas vezes sem se despirem ou mostrarem o pénis. Além disso, muitos deles, nas suas estratégias de sedução, dizem estar «fartos de ser usados como objectos sexuais», mais outro modo elegante de dizer que são exclusivamente passivos e «atraentes» (auto-imagem ilusória).
Perante estas observações, bem como da evidência empírica acumulada, nomeadamente fotográfica, tornava-se cada vez mais evidente que os homens homossexuais efeminados, sobretudo os hiperefeminados, têm pénis menores e, sobretudo, erecções menos potentes que os homens homossexuais masculinizados. Com efeito, em termos de auto-apresentação, os homossexuais efeminados, em particular quando são exclusivamente passivos, ignoram o seu próprio pénis, como se o não tivessem ou o rejeitassem, mas valorizam muitíssimo o tamanho do pénis dos seus potenciais parceiros sexuais. A sua «passividade a 100%», aliada a este facto — o tabu do próprio pénis, revela claramente que eles não têm uma identidade de género masculino tipicamente estruturada: o seu cérebro feminizado está, por assim dizer, prisioneiro num corpo dotado de um pénis. Pelo contrário, os homossexuais masculinizados e hipermasculinizados valorizam as dimensões dos seus próprios pénis — o orgulho do próprio pénis. Mas, apesar de todos valorizarem o tamanho do pénis, há uma outra diferença significativa entre eles: os homossexuais efeminados têm, em média, pénis menores que os homossexuais masculinizados e este marcador somático diferencia-os claramente entre si, como se o tamanho do pénis estivesse associado ao tipo de homossexualidade masculina exibida. Pelo menos, esta diferença parece corroborar a hipótese segundo a qual determinados homossexuais masculinos exibem atributos hipermasculinos, em particular pénis grandes, hipersexualidade, voyeurismo, exibicionismo, propensão sádica e agressividade sexual, frequentemente envolvendo violência doméstica, devido aos efeitos organizacionais da hiperandrogenização pré-natal. Muitos destes homossexuais com atributos hipermasculinos dizem ter tomado consciência da sua orientação homossexual, geralmente no decorrer da adolescência, quando verificaram que o que os estimulava sexual e eroticamente, ao verem um homem nu, a urinar ou em acção num filme pornográfico heterossexual, era precisamente o tamanho do pénis e/ou o tamanho do seu próprio pénis: uma homossexualidade estruturada, portanto, a partir do pénis e das suas dimensões, não só do pénis dos outros, mas também dos seus próprios pénis. Estes homossexuais orgulham-se muito do tamanho grande dos seus próprios pénis. À falta de melhor termo, designarei esse traço narcisismo fálico. De facto, eles estão apaixonados pelo seu próprio pénis: a sua auto-imagem e a sua auto-confiança passam necessariamente pela sua potência sexual — morfológica e funcional. Muitos destes homossexuais desejam secretamente ser penetrados analmente e, se isso não acontece mais frequentemente, não é por falta de oportunidades, mas porque o seu narcisismo fálico os impele, numa relação sexual, a exibir e a impressionar os seus parceiros sexuais com o seu falo: preferem ser «mamados», porque apreciam a sensação de ver os outros hipnotizados com o seu pénis, e/ou penetrar, podendo essa penetração anal ser vista por eles como dominação sexual sobre o parceiro e, nalguns casos, como castigo.
Se ser dotado de um pénis grande é (ou não) responsável, pelo menos em parte, pela orientação homossexual, não se sabe, mas ele pode, só por si, levar à experiência homossexual. Os ambientalistas alegam que o facto de, em certas culturas, o introdutor não ser considerado homossexual revela que a homossexualidade não tem nada a ver com a biologia: ela seria aprendida e/ou construída socialmente. Ora, este facto - o "macho" que faz sexo com outros homens para confirmar a sua virilidade - revela apenas que esses «pretensos machos» são propensos a ter relações homossexuais. Mas o facto de homens com um pénis hipermasculino serem homossexuais não é um facto social mas biológico. Não é por mero acaso que, no mundo heterossexual, se fale mais em «tomates» que em «vergas». Quando querem reforçar a masculinidade de alguém, os homens heterossexuais dizem: «Ele é um homem de tomates», enquanto os homens homossexuais preferem dizer: «Ele tem uma verga boa». Convictos do seu privilégio heterossexual, os homens heterossexuais raramente conversam sobre o tamanho do (seu) pénis: em relação às mulheres, o seu pénis é sempre «o melhor» até «porque até agora nunca ninguém se queixou dele»; em relação aos homens, a omissão é quase total, a menos que o pénis seja efectivamente grande, razão suficiente para a sua exibição. A obsessão pelo pénis grande que se observa actualmente na sociedade é efeito da homossexualização da vida sexual e social, assim como da moderna ideologia gay.
Estudo 1. Num estudo exploratório que realizámos, utilizando a ANOVA e levando em conta apenas o comprimento do pénis erecto, verificámos que o valor absoluto da diferença entre homens bissexuais e homens homossexuais (2,5) era maior do que o valor da respectiva DMS (2,06), donde resulta que, em média, o comprimento do pénis erecto dos homens homossexuais é maior que o dos homens bissexuais. Comparando o grupo dos homens homossexuais com o dos homens heterossexuais, o valor absoluto da diferença entre estes dois grupos (2,45) era maior que o valor da respectiva DMS (2,06), donde resulta que, em média, o comprimento do pénis erecto dos homens homossexuais é maior que o dos homens heterossexuais. Finalmente, comparando entre si os grupos de homens heterossexuais e bissexuais, o valor absoluto da diferença entre os dois grupos (0,05) era menor que o valor da respectiva DMS (2,38), donde resulta não haver diferença significativa entre os homens heterossexuais e bissexuais. O comprimento do pénis erecto dos homens homossexuais (20,35) é maior, em média, que o dos homens heterossexuais (17,9) e bissexuais (17,85) e o coeficiente de determinação (0,35) revela que a diferença entre as médias dos três grupos explica 35% da variação total.
Estudo 2. Outro estudo relacionado com este tinha por objectivo verificar se a preferência pelo papel sexual - activo, versátil e passivo - estava relacionada com a referência ao tamanho do pénis. Assim, constituímos uma amostra composta por 119 anúncios íntimos publicados numa revista homossexual portuguesa. Desses anúncios dois eram de casais homossexuais, mas, como fornecem informação sobre cada um dos membros do par, contam como quatro sujeitos. A análise estatística efectuada, com aplicação do qui-quadrado, mostra claramente que os homens homossexuais que se autodefinem como sexualmente activos referem mais prontamente o tamanho do seu pénis erecto do que os homens homossexuais autointitulados passivos que geralmente omitem essa informação pessoal. Estes dados foram submetidos a uma elaboração estatística mais apurada. Assim, para prever a referência ao tamanho do pénis, sem levar em conta a preferência sexual, a melhor previsão é «não» (95), cometendo 24 erros. Levando em consideração a preferência sexual, para os autointitulados activos, a previsão é 19, com 17 erros; para os autonomeados passivos, a previsão é 57, com 3 erros; e, para os autodefinidos versáteis, a previsão é 21, com 2 erros. Em conjunto, cometeríamos 22 erros, tomando a preferência sexual como base (RPE = 8,33%). Para prever a preferência sexual, sem levar em conta o tamanho do pénis, a previsão é 60, cometendo 59 erros. Levando em consideração a referência ao tamanho do pénis, para o «sim», a previsão é 19, com 5 erros; e para o «não», a previsão é 57, com 38 erros. Em conjunto, cometeríamos 43 erros, tomando o tamanho do pénis como base. Utilizámos depois o coeficiente lambda para reduzir o erro de predição. Para testar o grau de associação entre a preferência sexual (variável independente) e a referência ao tamanho do pénis (variável dependente), obtivemos o valor lambda de 8,33%. Ao testar o grau de associação entre a referência ao tamanho do pénis (variável independente) e a preferência sexual (variável dependente), obtivemos o valor lambda de 27,12%. Assim, quando a preferência sexual é considerada como a variável independente, reduzimos em 8,33% o erro da predição, aumentando a sua precisão. Usando a referência ao tamanho do pénis como variável independente, reduzimos em 27,12% o erro da previsão, aumentando a sua precisão. Assim, a referência ao tamanho do pénis prediz com maior precisão (27,12%) o papel sexual preferido do que o papel sexual preferido prediz a referência ao tamanho do pénis (8,33%). Ou, em termos mais simples, os homens homossexuais dotados de pénis de grandes dimensões são preferencialmente activos e exibem mais facilmente os seus pénis flácidos ou erectos.
Ora, todas estas indicações sugerem não só uma dicotomia entre dois tipos básicos de homens homossexuais - os efeminados e os masculinizados, como também uma outra diferenciação no seio de cada um destes tipos básicos. Entre os homossexuais efeminados, os tipos maricas e agitado são claramente hiperefeminados, enquanto os tipos enfastiado e agrupado são subefeminados: o grau de efeminamento decresce à medida que se transita de um tipo para outro, seguindo a ordem maricas, agitado, enfastiado e agrupado. Entre os homossexuais masculinizados, o grau de masculinização varia entre os simplesmente masculinos e os hipermasculinos, sendo difícil identificar completamente qualquer um dos subtipos com cada um destes pólos. A existência destas homossexualidades masculinas apontam para mecanismos biológicos diferenciados, embora possam estar relacionados de algum modo ainda por descobrir. Assim, em função deste enquadramento das homossexualidades, podemos agrupar os oito tipos de homens homossexuais em função dos «padrões básicos de desenvolvimento»: o padrão sexualmente atípico e o padrão sexualmente típico, cada um dos quais dotado de dois pólos. O padrão atípico de desenvolvimento compreende dois pólos: o hiperefeminado, no qual incluímos os homossexuais-maricas e os homossexuais-agitados, e o hipoefeminado, no qual incluímos os homossexuais-enfastiados e os homossexuais-agrupados. O padrão típico de desenvolvimento compreende também dois pólos: o hipermasculinizado e o simplesmente masculinizado. O primeiro pólo, o da hipermasculinização, tende a abranger os indivíduos pertencentes aos tipos homossexuais-emergentes, homossexuais-normalizados, homossexuais-caricaturais, bem como alguns homossexuais-enfastiados e homossexuais-agrupados. O pólo da simples masculinização pode incluir alguns dos homens homossexuais dos tipos referidos anteriormente, sobretudo os homossexuais-encobertos. Deste modo, e destacando a valorização do tamanho do pénis, obtemos três categorias de homossexuais masculinos mais fáceis de detectar: a categoria dos hiperefeminados, dotados de pénis relativamente pequenos; a categoria dos simplesmente masculinizados, dotados de pénis normais; e a categoria dos hipermasculinizados, dotados de pénis de grandes dimensões. Estas categorias tendem a corresponder à classificação emic dos homens homossexuais em função do papel sexual preferido: passivo, versátil e activo. Uma tal classificação exige um reagrupamento diferente das homossexualidades masculinas: os padrões masculinos e femininos tendem a sobrepor-se numa determinada área, dentro da qual teríamos diversos tipos de homossexuais, cujo tamanho do pénis seria tendencialmente normal. Estas categorias são mais abrangentes e, associadas a outros critérios, podem ser mais operacionais. Se os homossexuais-maricas e agitados podem ser integrados com segurança na categoria dos hiperefeminados, o mesmo já não pode ser dito em relação às outras categorias. Na categoria dos simplesmente masculinizados, podemos integrar todos os outros homossexuais, com excepção daqueles que apresentam atributos hipermasculinos, os quais se integram claramente na categoria dos hipermasculinos. Isto significa que a categoria intermédia integra homossexuais que podem exibir diversos traços masculinos e femininos misturados ou cruzados. O facto mais interessante é a moderna ideologia gay ser uma criação dos homossexuais que se enquadram nas categorias dos simplesmente masculinos e dos hipermasculinos. Todos os homens homossexuais partilham apenas a orientação «same-sex», isto é, sentem-se sexual e eroticamente atraídos por outros homens e por estímulos eróticos masculinos, mas não partilham os mesmos comportamentos sexuais e outros traços relacionados com o género. Esta diferenciação interna garante a sua independência sexual: os homens homossexuais não precisam dos serviços prestados por machos supostamente heterossexuais, embora estes contribuam para a sua rotação sexual. Se os homossexuais hiperefeminados têm um cérebro feminizado e, consequentemente, comportamentos sexuais atípicos e os homossexuais hipermasculinos, um cérebro hipermasculino e, por conseguinte, comportamentos hipermasculinos, então os homossexuais da categoria intermédia poderiam conjugar, em proporções variáveis, comportamentos masculinos e femininos. Ora, se a masculinização do cérebro humano e dos comportamentos adultos depende dos níveis de testosterona pré-natal, os níveis baixos produziriam homossexuais hiperefeminados, os níveis normais, homossexuais simplesmente masculinos, e os níveis elevados, homossexuais hipermasculinos. Rohde, Stahl & Dörner (1977) descobriram que os níveis de testosterona livre são mais baixos nos homossexuais efeminados, bem como nos transexuais macho-para-fêmea, do que nos homossexuais não-efeminados. Portanto, é altamente provável que a diferenciação inter-homossexual se deva ao papel organizacional desempenhado pelas hormonas sexuais no desenvolvimento pré-natal.
J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 13 de junho de 2010

Civilização Olmeca

Na segunda metade do II milénio antes da nossa era, surgiram na Mesoamérica os primeiros centros cerimoniais, principalmente em La Venta e San Lorenzo, nos actuais Estados de Tabasco e Veracruz, adornados com pirâmides e palácios construídos em redor de praças cobertas com mosaicos: o povo misterioso que transformou a estrutura social do México vivia na região costeira do Golfo do México. Nesta terra quente e húmida abundava a borracha, razão pela qual os seus habitantes foram chamados "olmecas", que significa "povo da borracha" - "povo del bule" - em náhuatl, a língua dos astecas. Antes do seu desaparecimento em 400 a.C., os olmecas já tinham difundido a sua cultura por uma extensa área da Mesoamérica, desde o vale do Balsas até El Salvador e a Costa Rica, do litoral do golfo até às montanhas de Oaxaca e ao litoral do Pacífico. Pirâmides e altares, estelas esculpidas, baixo-relevos, jades e jadeístas cinzelados e, sobretudo, a escrita hieroglífica e a contagem do tempo: eis os traços essenciais que os olmecas legaram a todas as grandes civilizações do período clássico do México.
A descoberta desta primeira civilização não foi um triunfo repentino da arqueologia: o significado dos primeiros vestígios da civilização olmeca permaneceu durante muito tempo sem ser compreendido. Em 1840, John Lloyd Stephens - um explorador norte-americano - descobriu e descreveu os maias da selva do Petén guatemalteco e da Península de Yucatán no México. Os especialistas e o público inteligente convenceram-se - durante um século - que os maias tinham sido os fundadores da civilização mexicana. Vinte anos depois de Stephens ter publicado a sua magnum opus sobre os maias, José María Melgar descobriu em 1862 a primeira cabeça colossal de pedra olmeca que pesava aproximadamente vinte toneladas: as feições negróides dessa cabeça não tinham nenhuma relação com qualquer objecto maia conhecido, mas, em vez de identificar uma nova cultura, Melgar procurou dar apoio às teorias sobre os navegadores negros que tinham supostamente visitado a América. A revelação da cultura olmeca foi adiada - ou melhor, esquecida - até que, em 1905, Eduard Seler - um estudioso alemão - sugeriu que essa cabeça era produto de uma cultura mais universal cuja área de influência não se limitava ao litoral da costa do Golfo. Os novos objectos olmecas descobertos durante esse período não geraram muitos comentários entre os especialistas. Franz Blom - antropólogo dinamarquês - e o jovem norte-americano Oliver La Farge descobriram em 1925 La Venta, o sítio arqueológico olmeca mais importante, juntamente com Tres Zapotes e San Lorenzo, donde desenterraram uma segunda cabeça e onde descobriram o grande altar de pedra - o Altar 4 -, mas a obsessão maia que lhes impregnava a mente impediu-os de identificar uma nova cultura anterior à civilização maia. Marshall H. Saville - director do Museum of the American Indian de New York - foi o único que abordou, num estudo publicado em 1929, estas novas descobertas como parte de uma nova cultura a que deu o nome de "olmeca". A cultura olmeca adquiriu uma nova dimensão universal - não confinada à quente e húmida costa do sul de Veracruz - quando George Vaillant - conservador do American Museum of Natural History de New York - descobriu em 1928 uma pequena orelheira de jade com a figura de uma besta agachada, metade homem e metade jaguar, que recordava exactamente o que Blom tinha achado em La Venta: as formas artísticas olmecas estavam imbuídas pelo culto ao jaguar. A descoberta de relevos de tipo olmeca em Chalcatzingo, no Estado de Morelos, confirmou logo a seguir a natureza panmexicana da misteriosa nova cultura que os especialistas procuravam ignorar. Matthew W. Stirling - arqueólogo - desempenhou nos estudos olmecas o mesmo papel que Stephens tinha desempenhado em relação aos maias um século antes. Em 1939, Stirling descobriu na base do montículo maior de Tres Zapotes uma estela - a estela C - com uma fileira vertical de números de barras e pontos, que aparentemente registava uma data mediante o método utilizado pelos maias. No lado oposto da pedra havia uma máscara de jaguar muito estilizada, tipicamente olmeca: Stirling descobriu que os números da pedra registavam uma data 260 anos anterior à mais antiga data esculpida em qualquer monumento de um sítio maia. Escolas de pensamento opostas discutiram o problema colocado pelas descobertas de Stirling: a causa olmeca foi defendida por dois mexicanos, Alfonso Caso e Miguel Covarrubias. Em 1942, a Sociedad Mexicana de Antropología realizou uma mesa redonda para discutir a prioridade histórica da cultura olmeca em relação à cultura maia. Embora os especialistas estivessem dispostos a aceitar que os olmecas eram, na realidade, a primeira civilização do México, Eric S. Thompson defendeu energicamente o seu povo preferido - os maias, tendo conseguido com a sua argumentação hábil e erudita fazer recuar Stirling. Porém, em 1957, o laboratório da Universidade de Michigan confirmou a maior antiguidade dos olmecas: o carbono 14 mostrou que as datas para La Venta iam de 800 a 400 a.C. A cultura olmeca acabou por triunfar e impor-se a toda a comunidade científica graças à utilização da técnica de radiocarbono.
Sobre a civilização olmeca - a primeira grande civilização da Mesoamérica - aconselho os seguintes livros:
Bernal, Ignacio (1968). El Mundo Olmeca. México: Ed. Porrúa.
Coe, Michael D. (1968). America's First Civilization. New York: American Heritage Publishing Co.
Coe, Michael D., & Diehl, Richard A. (1980). In the Land of the Olmec, 2 vols. Austin, Texas, London: Texas University Press.
Covarrubias, Miguel, & Chan, Román Piña (1964). El Pueblo del Jaguar. México: Museo Nacional de Antropología.
Flannery, Kent (1976). The Early Mesoamerican Village. New York: Academic Press.
McNeish, Richard (1967-1972). The Prehistory of the Tehuacán Valley, 5 vols. Austin, Texas, London: University of Texas Press.
Milbraith, Susan (1979). A Study of Olmec Sculptural Chronology. Washington, D.C.: Dumbarton Oaks.
Soustelle, Jacques (1986). Los Olmecas. México: Fondo de Cultura Económica.
Wicke, Charles R. (1971). Olmec: An Early Art Style of Pre-Columbian Mexico. Tucson, Arizona: University of Arizona Press.
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Civilização Asteca: Uma Cronologia

1111 (?): Os Mexica partem de Aztlán.
1163: Os Mexica celebram o novo Fogo em Coatepec.
1168: Queda definitiva da capital dos Toltecas, Tula.
1215: Os Mexica celebram o novo Fogo em Apaxco.
1267: Os Mexica celebram o novo Fogo em Tecpayocan.
1299: Os Mexica chegam a Chapultepec.
1319: Os Mexica são expulsos de Chapultepec.
1343: Os Mexica fogem para Colhuacán.
1345: Fundação de Tenochtitlán.
1358: fundação de Tlatelolco.
1371: Ascensão de Tezozomoc de Azcapotzalco.
1372: Ascensão de Acamipchtli de Tenochtitlán e de Cuacuapitzahuac de Tlatelolco.
1375: Início das hostilidades dos Tepaneca-Mexica contra Chalco.
1391: Morte de Acamapichtli.
1395: Guerra de Xaltocan.
1398: Expedição mexica contra Cuahtiçcan.
1402: Nascimento de Nezahualcoyotl.
1403: Os Mexica celebram o novo Fogo em Tenochtitlán.
1407: Morte de Cuacuapitzahuac de Tlateloloco. Ascensão de Tlacateotl.
1409: Ascensão de Ixtlixochitl de Texcoco.
1414-1418: Guerra Tepaneca-Mexica contra Texcoco.
1417: Morte de Huitzilihuitl de Tenochtitlán. Ascensão de Chimalpopoca.
1426: Morte de Tezozomoc de Azcapotzalco, de Chimalpopoca de Tenochtitlán e de Tlacateotl de Tlatelolco. Ascensão de Maxtla, Itzcoatl e Cuauhtlatoa.
1428: Derrota dos Tepanecas de Azcapotzalco contra os Mexicas.
1431: Reconquista de Texcoco por Nezahualcoyotl.
1440: Morte de Itzcoatl. Ascensão de Motecuzoma I.
1446-1450: Novas hostilidades contra Chalco.
1450-1454: A grande fome.
1455: Celebração da cerimónia do novo Fogo em Tenochtitlán.
1458: Campanha de Coixtlahuaca.
1461-1462: Campanha de Cotaxta.
1465: Derrota final de Chalco.
1468: Morte de Motecuzoma I. Ascensão ao poder de Axayacatl.
1472: Morte de Nezahualpilli em Texcoco. Ascensão ao poder de Nezahualpilli em Texcoco.
1473: Derrota de Tlateloloco. Morte de Moquihuix.
1474: Campanha de Toluca.
1478: Campanha contra os Tarascas.
1481: Morte de Axayacatl. Ascensão de Tizoc.
1486: Morte de Tizoc. Ascensão de Ahuitzotl. Campanha de Ahuizotl contra os Matlazinca.
1487: Guerra contra os Huaxtecas. Conquista de Xiuhcoac.
1488-1489: Campanha na região de Oaxaca.
1491-1495: Submissão da costa do Guerrero, de Acapulco em Zacatula.
1494-1495: Novas campanhas na região de Oaxaca.
1496: Conquista da região do istmo de Tehuantepec.
1499-1500: Campanha de Soconusco.
1500: Inundação de Tenochtitlán.
1502: Morte de Ahuizotl. Ascensão ao poder de Motecuzoma II.
1503: Conquista de Achiotla. Início da guerra contra Tlaxcala. Campanha de Quetzaltepec e Totepec.
1505-1506: Conquista de Yahuitlan e de Zozollan.
1507: Cerimónia do novo Fogo em Tenochtitlán.
1508-1513: Campanhas astecas contra Huexotzinco.
1511: Conquista de Tlaxiaco.
1515: Morte de Nezahualpilli de Texcoco. Ascensão de Cacama. Nova guerra contra Tlaxcala. Os Huexotzinga refugiam-se em Tenochtitlán.
1517: Hernández de Córdoba chefia uma expedição em direcção às costas do México.
1518: Fim da ocupação asteca em Huexotzinco, que se torna aliada de Tlaxcala. Juan de Grijalva chefia uma expedição em direcção ao México.
1519: 10 de Fevereiro: Cortez embarca para a cidade do México-Tenochtitlán. 8 de Novembro: Cortez entra na cidade.
1520: 27 de Junho: morte de Motecuzoma II. Sucede-lhe primeiramente, para um breve reinado, Cuitlahuac, e, a seguir, Cuauhtemoc. 30 de Junho: a Noche triste. Cortez abandona Tenochtitlán.
1521: 28 de Abril: Inicío do cerco final de Tenochtitlán. 15 de Agosto: queda de Tenochtitlán. Captura de Cuauhtemoc. (Adaptado de Nigel Davies: The Aztecs, 1974.)
J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Humanismo Quetzalcoatliano

A Serpente Emplumada - tradução literal de quetzal (pássaro) e cóatl (serpente) - é, pela sua singularidade e profusão, o símbolo das antigas culturas mesoamericanas. Em 1345, os astecas fundaram Tenochtitlán: o seu guia espiritual era a mensagem humanista de Quetzalcóatl, o grande profeta americano, ou melhor, o primeiro homem que se converteu em deus - não é um deus encarnado - para ajudar os seus semelhantes a orientar a sua existência na direcção do aperfeiçoamento espiritual e moral num mundo instável e entrópico. O pensamento náhuatl observa a ordem objectiva a partir da sua materialidade, sem se deixar aprisionar pela inércia aparente dessa ordem material: o homem pode libertar-se das ligações naturais que o aprisionam aos seus limites mortais, mediante o desenvolvimento da faculdade da reflexão. A Filosofia de Quetzalcóatl foi reconstruída e analisada de modo brilhante por Laurette Séjourné: os astecas adoptaram os ensinamentos de Quetzalcóatl como base moral da sua sociedade, mas usaram as suas leis de aperfeiçoamento interior para legitimar uma sangrenta razão de Estado: a união mística com a divindade, que o indivíduo só pode alcançar gradualmente mediante uma vida de contemplação e de penitência, passou a ser determinada pela maneira como se morre: o sacrifício humano, a transmissão da energia humana - o sangue - ao Sol. A revelação exaltante da Unidade eterna do espírito converteu-se em princípio de antropofagia cósmica: a libertação do eu diferenciado realiza-se assim por meio do assassinato ritual que fomenta as guerras.

Sobre a civilização asteca - a minha civilização pré-colombiana preferida - recomendo a leitura das seguintes obras:

Anawalt, Patricia (1981). Indian Clothing before Cortes: Mesoamerican Costumes from the Codices. Norman, Okl: University of Oklahoma Press.

Bray, Warwick (1968). Everyday Life of the Aztecs. New York: Putnam.

Brundage, Burr Cartwright (1972). A Rain of Darts. Austin, Texas: University of Texas Press.

Caso, Alfonso (1971). El Pueblo del Sol. México: Fondo de Cultura Económica.

Davies, Nigel (1974). The Aztecs. New York: Putnam.

Davies, Nigel (1980). The Toltec Heritage. Norman, Okl: University of Oklahoma Press.

Davies, Nigel (1982). The Ancient Kingdoms of Mexico. London: Penguin Books.

Duverger, Christian (1978). L'Esprit du Jeu chez les Aztèques. Paris: Mouton-EHESS.

Duverger, Christian (1979). La Fleur Létale: Économie du Sacrifice Aztèque. Paris: Éditions du Seuil.

Gibson, Charles (1964). The Aztecs under Spanish Rule. Stanford, California: Stanford University Press.

Hunt, Eva (1977). The Transformation of the Humming Bird. Ithaca, London: Cornell University Press.

Katz, Friedrich (1966). Situación Social y Económica de los Aztecas durante los Siglos XV y XVI. México: Universidad Nacional Autónoma de México.

León-Portilla, Miguel (1983). Toltecáyotl: Aspectos de la Cultura Náhuatl. México: Fondo de Cultura Económica.

Porter Weaver, Muriel (1972). The Aztecs, Maya and their Predecessors. New York: Seminar Press.

Ricard, R. (1933). La Conquête Spirituelle du Mexique. Paris: Institut d'Ethnologie.

Sanders, William T., Jeffrey R. Parsons & Robert S. Santley (1979). The Basin of Mexico: Ecological Processes in the Evolution of a Civilization. New York: Academic Press.

Séjouné, Laurette (1957, 1993). Pensamiento y Religión en el México Antiguo. México: Fondo de Cultura Económica.

Séjouné, Laurette (1959). Un Palacio en la Ciudad de los Dioses. México: Fondo de Cultura Económica.

Séjourné, Laurette (1962, 1993). El Universo de Quetzalcoatl. México: Fondo de Cultura Económica.

Simoni-Abbat, Mireille (1976,1988). Os Astecas. Porto: Vertente.

Soustelle, Jacques (1940). La Pensée Cosmologique des Anciens Mexicains. Paris: Hermann.

Soustelle, Jacques (1955, 1956). La Vida Cotidiana de los Aztecas en Vésperas de la Conquista. México: Fondo de Cultura Económica.

Soustelle, Jacques (1966). L'Art du Mexique Ancien. Paris: Arthaud.

Soustelle, Jacques (1967). Les Quatre Soleils. Paris: Plon.

Soustelle, Jacques (1970, 1983). Les Aztèques. Paris: PUF.

Sullivan, Thelma D. (1976). Compendio de la Gramática Náhuatl. México: Universidad Nacional Autónoma de México.

Vaillant, Georges (1951). Les Aztèques du Mexique. Paris: Payot.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 8 de junho de 2010

Jaime Cortesão e os Descobrimentos Portugueses

«A interpretação do passado, muito mais quando abrange um largo teatro e época de acção, supõe uma filosofia subjacente. A nosso ver, a história não obedece apenas a um determinismo geográfico e económico. Não ignoramos que a trama comum do passado é tecida pelo esforço dos homens, na luta quotidiana com a natureza e sob o acicate das necessidades primárias. Negar, porém, a parte das aspirações espirituais e da criação individual na história é reduzi-la a um arremedo inumano de ciência. /Sobre a talagarça da infra-estrutura económica, moldada por sua vez pelo meio geográfico, cujo estudo de conjunto historiador algum, digno do seu tempo, pode dispensar, as grandes correntes espirituais e as fortes personalidades que as encarnam, bordaram o íris das crenças religiosas, dos novos conceitos da ciência e da filosofia, das múltiplas expressões das artes, ou a marca das vontades poderosas, ao serviço dos interesses próprios ou gerais, tanto maiores e mais fecundos quanto mais o individual se fundiu com o colectivo. /Uma escola moderna, eivada de sentido geométrico, tem procurado resolver os problemas da história como se fossem teoremas, filtrando as suas averiguações através dum fino e complicado crivo de análises críticas, números, gráficos e estatísticas, abolindo as individualidades do seu relato e ignorando por sistema que todos os ideais participam da fé e toda a progressão humana representa um processo do espírito e uma conquista da liberdade. Por via de regra, os historiadores desse tipo afadigam-se no trabalho meritório de apuramento e discussão das fontes, mas esquecem-se de subordiná-las, como dizia Benedetto Croce, à fonte suprema, à autoridade da consciência humana, historicamente viva e activa. /Nessa escola de historiografia não enfileiramos. Acreditamos, sim, que os descobrimentos portugueses, se obedecem a factores geográficos e económicos - verdade indiscutível -, participam dum longo processo espiritual, que visa, tanto como o conhecimento científico do planeta e o seu enquadramento no Universo, a sagração religiosa da natureza e da vida, a humanização e a libertação das consciências - gesta dolorosa e épica cujas fontes e referências supremas são a História Trágico-Marítima e Os Lusíadas». (Jaime Cortesão)
Jaime Cortesão (1884-1960) é um ilustre historiador da Escola do Porto, pelo menos durante um largo período da sua vida, antes de ser corrompido pelas ideias pseudo-racionalistas e idealistas de António Sérgio, que escreveu a grande História dos Descobrimentos Portugueses numa chave universal e humanista. Infelizmente, nem a obra do historiador, nem a sua filosofia dos descobrimentos portugueses, são conhecidas pelo grande e pequeno públicos: o público português não é dado à leitura e ao estudo. Jaime Cortesão não partilha com Alexandre Herculano a desconfiança pela filosofia da história: a interpretação do período longo dos descobrimentos portugueses supõe uma filosofia, como afirma, que interpretei em chave epistemológica - num estudo de juventude - como uma mudança de paradigmas: Jaime Cortesão realiza em 1928 um ajuste de contas com a sua anterior consciência da história, usando a concepção marxista da história e a geo-história para romper com a interpretação heróica encarnada pela figura do Infante D. Henrique, outro ilustre portuense, que desempenhou um papel crucial nas descobertas e na expansão portuguesas. Os conceitos de geo-história e de tempo longo - a longa duração - que partilha com Braudel legitimam esta leitura epistemológica: a nova concepção da história não nega os determinismos geográfico e económico, mas anima-os com a acção das individualidades que encarnam os interesses colectivos. Jaime Cortesão estava mais próximo da interpretação marxista da história do que supunha: o seu "humanismo" não contraria essa concepção, até porque não é verdadeiramente um humanismo teórico que procura explicar a história a partir das peripécias da essência humana. É muito difícil descobrir uma antropologia em acção no pensamento de Jaime Cortesão: o seu humanismo universalista mais não é do que a substituição do humanismo renascentista pelo humanismo prático protagonizado pelos portugueses: «O que ao findar o século XV põe termo à Idade Média não é nem podia ser o Renascimento clássico; não é o regresso às fontes, por mais puras, da Antiguidade, mas a integração do homem no seu habitat e o súbito acesso às fontes novas e inesgotáveis que em todo o planeta se oferecem à sua sede de conhecimento, de poderio e de riqueza» (J. Cortesão).
Jaime Cortesão define, numa primeira aproximação, Os Lusíadas como «a epopeia duma pequena Pátria, que descobriu e unificou o Mundo, pelo conhecimento, pelo amor e pela fé». A teoria geral dos descobrimentos portugueses de Jaime Cortesão integra os descobrimentos dentro de uma problemática histórica universal, de modo a destacar e a compreender o lugar eminente que aos Portugueses cabe na história da civilização: o descobrimento e a unificação do Mundo pelo conhecimento. Acusando os historiadores estrangeiros de não terem dado a importância devida aos Portugueses na criação dos Tempos Modernos, Jaime Cortesão retoma a filosofia elaborada pela Escola do Porto para mostrar que a grande transformação do pensamento mundial é obra dos descobrimentos portugueses, com os quais desponta, pela primeira vez, o humanismo universalista, que «tende à designação do homem, não pelo regresso aos limitados cânones da Antiguidade (greco-romana), mas, ao contrário, como resultado duma experiência nova e universal, que permitiu a comparação e unificação de todas as idades de cultura e tipos de humanidades». Ora, como já tinha mostrado a filosofia da Escola do Porto, esse humanismo universal foi cantado por Camões, cuja concepção genial tomou «como motivo épico de inspiração esse descobrimento português do Mundo, nas suas origens, amplitude e consequências humanísticas». A expressão humanismo universalista capta uma nova concepção da humanidade: «Humanidades novas, totalmente ignoradas, surgem aos olhos dos navegadores, na orla ou no interior dos continentes», levando à «formação duma cultura nova, de base experimental e tendência crítica». É certo que Jaime Cortesão refere a vasta literatura etnográfica e etnocientífica dos portugueses, mas a sua filosofia tende a girar em torno do carácter peculiar que os descobrimentos e as navegações imprimiram à língua portuguesa, a língua de navegantes. Tal como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão está convencido de que a língua portuguesa formada na lide com o mar incorpora uma nova concepção do mundo unificado, uma moral e uma filosofia do homem universal: «A cada passo, todos nós, Portugueses e Brasileiros, falamos sem o saber, tão comuns se tornaram certas expressões, uma língua de bordo. O mais sedentário de nós, quando fala, continua, pela força da tradição, a navegar».
A imagética náutica - o imaginário de navegadores - incorporada na língua portuguesa faz dela uma língua universal: o Português cantado por Camões é o homem «para quêm o perigo é o sal da vida; todos os homens, camaradas; e a Pátria, na própria frase do Poeta, toda a Terra». O humanismo camoniano é humanismo universalista, que funde Pátria e Humanidade na mesma síntese, sem distinguir entre nacionalismo e universalismo, entre arianos e semitas, entre brancos e negros, entre ricos e pobres. Para Jaime Cortesão, «a mais alta definição d'Os Lusíadas seria: o poema da fusão do Homem com o Universo. /Eles são o poema de uma cultura nova, de formação essencialmente portuguesa - aquilo a que chamámos o humanismo universalista -, sentido novo da vida, feito juntamente de juízo crítico e de fé, de obediência e rebeldia, de fria observação experimental e proselitismo ardente; de comunhão divina e amor humano; e, mais que tudo, duma larga, generosa e fraterna compreensão dos outros homens e dos outros povos. Aqui, nesta capacidade de compreender e amar a diversa humanidade, na larga efusão da simpatia, no quente abraço de fraternidade com que se conquista o próprio inimigo, como acontece na história e no Poema, com o mouro Monçaide, em Calecute, está verdadeiramente gravada a marca lusitana» (J. Cortesão). Infelizmente, Ernst Bloch desconhecia Os Lusíadas que fazem da Terra a Pátria da Identidade de todos os Homens: a fantasia náutica dos portugueses é fantasia geográfica que sonha com o Paraíso Terrestre, a fusão do Éden e do Eldorado como o ideal radical da utopia geográfica que visa a constituição futura da terra como casa do homem. Reinventar a sociedade portuguesa é, nesta hora obscura, redescobrir e resgatar o nosso passado, usando-o para projectar o futuro novo. Reescrever a nossa história é abrir as portas ao futuro: o descobrimento do Mundo é a chave que abre a nossa sociedade à globalização. A nossa fantasia primordial é náutica, isto é, geográfica e, num segundo momento, erótica: «Es erscheint dem Menschen so natürlich, mit der Einbildungskraft die Schranken des Raumes zu überschreiten, ein Etwas jenseits des Gesichtskreises zu ahnen, welcher den Meeresspiegel abgrenzt, das man selbst in jenem Zeitalter, wo die Erde noch als eine ebene oder nur unbedeutend an ihrer Oberfläche konkave Scheibe betrachtet wurde, zu dem Glauben geführt werden konnte, es gebe jenseits des Gürtels, welchen der homerische Ozean bildete, noch eine andere Wohnung für die Menschen, eine andere Ökumene, gleich wie die Lokaloka der indischen Mythen ein Gebirgsring, der jenseits des siebenten Meers liegen soll» (A. von Humboldt). A Teoria do Porto Fantasia - o porto seguro - encontra no Canto IX o seu arqui-fundamento geo-erótico e oceânico.
J Francisco Saraiva de Sousa

Prós e Contras: Crescer e Vencer a Crise

Prós e Contras debateu hoje (7 de Junho) a inovação e o empreen-dedorismo, tendo como convidados Rui Moreira, Mira Amaral, António Souza-Cardoso e António Gomes Mota, para além de um conjunto de empresários da alta tecnologia. O princípio organizativo subjacente a este debate articulou universidades, tecnologia e ideias diferentes e originais. Eu não simpatizo com o termo empreendedorismo e, se o empreendedor for um empresário que corre riscos, no sentido clássico do termo, então confio mais nos empresários natos do que nos empreendedores formados nas escolas ou nas universidades. É certo que o empreendedorismo - a iniciativa privada - é um dos caminhos a seguir para superar a crise e colocar Portugal na via do crescimento económico e do desenvolvimento cultural, mas nem todas as iniciativas dos empreendedores merecem a mesma atenção: algumas das ideias apresentadas pelos tecno-empresários neste debate-exposição lançam-nos no abismo, porque empobrecem e liquidam a humanidade dos homens. A articulação da inovação e da gestão é quase sempre uma aliança terrível: o modelo económico que a suporta deve ser combatido se quisermos dar continuidade à aventura humana neste planeta azul. Mas, antes de avançar neste terreno da sociedade dos empreendedores, pretendo introduzir novo material conceptual.
Há dois paradoxos - dois pensamentos de ladrão de colarinho-branco - que quero denunciar: o primeiro é negar a realidade da sociedade de classes, ao mesmo tempo que se fala da emergência das classes médias e das suas camadas sociais avaliadas em função dos rendimentos (1), e o segundo é ver na China o modelo de desenvolvimento a seguir por Portugal e pela Europa (2). Aqueles que preconizam estes pensamentos são os ladrões de colarinho-branco que, sendo formados nas escolas de economia e de gestão, desejam garantir a sua rápida ascensão social, apoderando-se para o efeito dos órgãos de decisão política, económica e financeira e auto-atribuindo-se salários e prémios ultramilionários: são homens sem qualidades e sem sensibilidade que reduzem a sociedade e a cultura à gestão, entregando-as à especulação do capitalismo financeiro. Na sua perspectiva, os empresários de risco e os trabalhadores não são necessários: eles precisam unicamente de consumidores de serviços e de bens que são importados da China. Os ladrões europeus de colarinho-branco identificam-se com o modelo chinês, não na sua capacidade de produção, mas no seu carácter autoritário. O capitalismo financeiro e o fascismo implicam-se reciprocamente, e, na actual conjuntura política, é a camada auto-elevada das classes médias que promove o fascismo: a sua noção de Estado é «asiática» e, como é evidente, o seu modelo de desenvolvimento é regressivo, porque implica um recuo social e civilizacional. O PS e o PSD movem-se neste terreno da apologia das classes médias: eles governaram Portugal nos últimos 30 anos e o resultado da sua acção governativa é a situação de corrupção e de miséria em que estamos mortalmente mergulhados.
A denúncia destes dois pensamentos de ladrão de colarinho-branco coaduna-se com a perspectiva de Rui Moreira. Com excepção das empresas de sucesso, os tecno-empreendedores, pelo menos um ou outro deles, procuram vender ao Estado as suas "descobertas": a ideologia da carreira garantida (Gomes Mota) casa-se aqui com a ideologia do empreendedorismo garantido pelo Estado. As duas ideologias comportamentais são as faces de uma só e mesma moeda: o medo de correr riscos, a aversão ao risco. Em Portugal, o risco não é premiado e, como disse Rui Moreira, sem risco não pode haver empreendedorismo. Rui Moreira articulou duas fobias nacionais para explicar a miséria nacional: o medo do risco e a fobia das elites ou fobia do mérito. O sistema estabelecido persegue a diferença: os portugueses colonizados pelo sistema nacional promovido pela burocracia estatal odeiam todos aqueles que se destacam pela diferença e pela originalidade, acusando-os de ser exibicionistas. O incremento da inveja que daí resulta penaliza o mérito e as elites criadoras: todos querem chegar à meta ao mesmo tempo e o Estado que promove esta falsa igualdade - a ignorância universal activa - interfere demasiado na rota dos navegadores, predefinindo alvos errados e monoculturas condenadas ao fracasso. Rui Moreira deu como exemplo o fracasso da fabricação da marca "Made in Portugal": a nossa economia especializou-se mais no fabrico de componentes do que de produtos acabados, mas no sector dos produtos acabados nunca conseguiu criar uma marca internacionalmente reconhecida. Os mercados externos ou até mesmo o mercado interno não acreditam nos portugueses e nos produtos que fabricam: a criação da marca "made in Portugal" estava desde logo condenada ao fracasso. As pessoas que já estiveram no estrangeiro sabem muito bem o que significa aí a palavra "Portugal": a desconfiança total e a falta de credibilidade. Dizer que se é português é uma vergonha: os portugueses têm vergonha de ser portugueses e são os primeiros a não confiar em Portugal. Quem não confia em si próprio não merece a confiança dos outros: a marca "made in Portugal" é desacreditada pelos próprios portugueses. Porém, os portugueses do Norte, em especial os portuenses, têm boas razões para desconfiar da marca nacional: Lisboa, a região mais endividada externamente, apropria-se daquilo que não lhe pertence - as empresas, os bancos e as pessoas do Norte que são responsáveis por 40% das exportações nacionais, em nome de uma falsa identidade nacional. Aliás, Fátima Campos Ferreira começou e terminou o debate a brincar com a tecno-mesa de uma empresa de Braga que lhe permitiu destacar os jogadores de futebol da selecção nacional pertencentes a clubes de Lisboa. (Precisamos de uma TV regional para promover os nossos e as nossas coisas.)
Conforme acentuou António Souza-Cardoso, apesar do centralismo exacerbado da capital asteca, o Norte continua a estar na linha da frente. Centralismo lisboeta sem desenvolvimento regional harmonioso: eis a raiz da nossa agonia nacional que Rui Moreira tematizou em termos de burocracia estatal. Como quebrar este feitiço do Estado centralizado? A resposta só pode ser a regionalização ousada que, no que se refere ao Norte e ao Porto, deve evitar o êxodo das empresas, dos bancos e das pessoas para Lisboa, fazendo regressar para a nossa terra aquilo que nos pertence. Porém, deslumbrado com um modelo tosco de globalização, Souza-Cardoso preconizou a ideia peregrina de vender a nova geração lá fora: a terceira vaga de emigração portuguesa constituída por utensílios humanos multi-usos. A utopia marxista do Homem Total converte-se aqui no seu contrário: o anti-homem lançado num mercado de multi-empregos. Souza-Cardoso especula como se a natureza humana tivesse sofrido uma terrível mutação, porque, no seu modelo de globalização, a totalidade do homem já não é reduzida ao conjunto dos bens e dos serviços que consome, mas sim aos multi-usos a que se presta. A visão economicista do mundo é absolutamente néscia e lança-nos na boca da morte: a actual crise financeira e económica é a crise da própria "ciência económica" e da sua pretensão universal de controlar a totalidade da sociedade, da cultura, do homem e da natureza. De certo modo, a crítica da economia do hamburger e do empreendedorismo da necessidade exposta por Mira Amaral pode ser utilizada para destruir esta redução económica de Souza-Cardoso. Como podemos exportar criaturas metabolicamente reduzidas? Como podemos exportar aquilo que não temos e que precisamos? O fracasso da marca "made in Portugal" compromete o sonho de Souza-Cardoso: ninguém com juízo quer comprar portugueses habituados a demasiado conforto e a vida fácil. Investigação e inovação são coisas diferentes, como mostrou Mira Amaral: Portugal investiu alguma coisa na investigação, mas falta-lhe a inovação que Souza-Cardoso já quer exportar ou vender lá fora. A elevada taxa de mortalidade das empresas que apostam na inovação não surpreende Mira Amaral e Rui Moreira: a selecção faz o seu trabalho quando elimina os projectos não-competitivos. O desfile de empresários inovadores e a exibição dos seus produtos quebraram a unidade do debate: os portugueses contornam e suspendem as clivagens e as divergências, sem as quais não pode haver desenvolvimento. O que fica deste debate é a ideia de que, em Portugal, não há dinheiro para implementar as ideias originais (Rui Moreira), nem no campo da investigação, nem no campo da inovação: a mentira, as fogueiras das vaidades (a diplomacia económica promovida pelas viagens do PR e do PM) e as ilusões fazem de Portugal uma sociedade bloqueada. O imaginário radical de que precisamos para reinventar a nossa sociedade não pode ser preconizado e promovido pelas mesmas "moscas" que geraram a nossa desgraça nacional.
J Francisco Saraiva de Sousa