terça-feira, 31 de maio de 2011

A Filosofia Estética do Atelier de Arte Realista do Porto

Tendo como imagem de fundo esta bela pintura a óleo de Daniel Africano Rocha - Francesca de S Minato del Sera, pretendo chamar a atenção do público em geral para a obra artística do Atelier de Arte Realista do Porto, destacando três figuras desta nova escola de pintura, desenho e escultura do Porto: Daniel Gamelas (escultor), Daniel Africano Rocha (pintor) e Armando Aguiar (pintor hiper-realista). O Porto - ele próprio uma grandiosa e bela obra-de-arte! - foi sempre a grande capital da arte, e é com satisfação redobrada que aplaudo o surgimento de uma nova escola de arte na Cidade Invicta, cujo programa estético é o realismo. Embora não tenham elaborado um programa estético exaustivo, os jovens artistas portuenses reclamam como herança a grande Arte Realista num mundo que parece ter despedido tanto o realismo crítico como a arte de vanguarda. Com a Escola de Frankfurt, em especial com a teoria estética de Theodor W. Adorno, a estética marxista distanciou-se ferozmente do realismo socialista e reclamou a arte de vanguarda, em detrimento do realismo crítico defendido por Georg Lukács. Entretanto, desde a morte destes ilustres e brilhantes estetas do marxismo e da Filosofia, o mundo sofreu profundas transformações sociais, cujo vector fundamental parece apontar mais na direcção da pertinência das análises de Georg Lukács do que das análises de Adorno. Quando escreveu que os pensadores radicais da Escola de Frankfurt, bem como Ernst Bloch, se tinham instalado «no Grande Hotel do Abismo» - «um hotel provido de todo o conforto moderno, mas suspenso à beira de um abismo, do nada, do absurdo. O espectáculo quotidiano do abismo, situado entre a qualidade da cozinha e as distracções artísticas, só pode realçar o prazer que encontram os pensionistas neste conforto refinado», Lukács revelou a sua superior capacidade de antecipação de um futuro terrível que, infelizmente, é o nosso presente. A crise financeira e económica de 2007-08 empurrou o Grande Hotel do Conforto Moderno para as profundezas da garganta do abismo: os pensionistas do Hotel do Conforto e a arte de vanguarda andaram de tal modo distraídos do mundo, completamente afundados na luxúria do conforto e compensados com os prazeres da cozinha - afinal, o animal metabolicamente reduzido prefere comer, beber e fazer sexo compulsivo para compensar falsamente o seu vazio existencial, em vez de pensar! -, que deixaram o capitalismo livre para mergulhar a seu bel-prazer o mundo no abismo e no caos da miséria mais abjecta. Será que o realismo crítico tal como o tematizou Lukács, sobretudo no domínio da grande literatura, está a adquirir a actualidade que lhe foi negada no seu tempo? Ainda é muito cedo para fazer uma avaliação estética e política da nova arte realista do Porto, mas a obra até agora produzida promete abrir novos horizontes ao mundo mergulhado no abismo. A tonalidade apocalíptica que descubro na obra de Daniel Gamelas e de Daniel Africano, bem como nos quadros de transparências e de luz de Armando Aguiar, agrada-me especialmente: os mistérios escondidos nas ruas e no casario do Porto são sinais apocalípticos - memórias e ruínas de um passado que não pode ser esquecido sem que o mundo mergulhe na catástrofe.

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 30 de maio de 2011

BinPhilosophy: a Catástrofe Final

... ou a Filosofia do Mal Radical

A Filosofia voltada sobre si própria, como se não houvesse nada fora dos textos (Derrida), alienou-se do mundo. Tomada como disciplina orientadora e matriz da Filosofia, a hermenêutica não só esvazia a Filosofia de conteúdos objectivos de conhecimento, como também a reduz a uma inutilidade sem importância teórica e política. De certo modo, a hermenêutica é a filosofia alucinada que melhor corresponde ao espírito subnutrido mental e cognitivamente da actual sociedade de mónadas alucinadas que caminham para o abismo, a noite sem fundo das noites. Ao contrário do que apregoava o profeta do neoliberalismo, Karl Popper, nós vivemos no pior dos mundos possíveis: a banalidade do mal de que falou Hannah Arendt não foi levada em atenção por toda esta geração de filósofos alucinados e de masturbadores compulsivos que, sem disso terem consciência, viram a figura nietzscheana do super-homem realizada no animal metabolicamente reduzido. A verdade é que nem o homem avançou para um nível superior de humanidade, conforme a promessa do super-homem de Nietzsche ou o sonho soviético de criação do novo homem, nem a sociedade comunista se realizou: o que triunfou foi o grande mal que são o neoliberalismo - e o seu companheiro de jornada, o BinLadenTerrorismo. O fracasso global de realização de uma espécie de paraíso na terra exige uma revisão substancial das grandes filosofias políticas do nosso tempo, sobretudo da filosofia de Marx. Num mundo em que a figura do super-homem ou do homem novo é uma figura regressiva, a do animal metabolicamente reduzido, a concepção do homem como paixão inútil de Sartre adquire uma nova actualidade: o homem nunca será Deus, o homem não tem salvação, o que quer dizer que o sentido da sua aventura histórica é a catástrofe final - a aniquilação total. A escatologia hebraico-cristã que alimentou as grandes filosofias da história deve ceder o seu lugar ao Apocalipse sem salvação possível.

A concepção apocalíptica da história que estou a sugerir radicaliza o pessimismo teológico do velho Max Horkheimer, ao mesmo tempo que abandona definitivamente as narrativas das grandes ilusões da humanidade, incluindo a de justiça plena projectada num futuro distante que nunca será pura actualidade. O materialismo pensado por Althusser como filosofia que não alimenta ilusões é a figura de pensamento adequada a esta nova concepção apocalíptica da história. Quem pensa que uma tal filosofia da história desvaloriza a política engana-se redondamente, porque a sua tarefa é preencher o vazio político deixado pelo marxismo. A catástrofe final como sentido derradeiro da história não só valoriza a política como actividade capaz de a adiar, como também permite traçar uma linha de demarcação entre a pequena política e a grande política em função das conjunturas sociais e políticas. A política entendida como actividade nobre capaz de adiar por tempo indeterminado a catástrofe final converte-se em grande política quando, além disso, é capaz de operar uma tentativa de restituição integral da história no tempo de agora (Walter Benjamin). Neste sentido, pelo facto de tentar negar - no momento presente - a última palavra aos carrascos, cuja marcha triunfal sobre um monte de cadáveres acelera o caminhar histórico para o final trágico da humanidade, a grande política permanece fiel ao velho espírito da política de esquerda clássica. Mas o que diferencia a nova prática política marxista da sua forma clássica é o facto de não reconduzir para o futuro a única tarefa de salvação possível: o resgate do sofrimento passado. Como é evidente, a morte foi sempre o grande obstáculo contra o qual esbarraram todas as filosofias da história que secularizaram a escatologia hebraico-cristã: Ernst Bloch e Herbert Marcuse confrontaram-se com o problema da morte, sem no entanto o conseguir contornar com eficácia teórica e política. Aos seres mortais está vedado o sonho diurno de um futuro feliz garantido. E, como não podem garantir um final feliz, projectado sobre a tela de um futuro distante que não podem controlar, resta-lhes tentar garantir - aqui e agora - aquilo que pode ser salvo do esquecimento: o passado. Salvar o passado da humanidade oprimida do esquecimento é já uma tentativa de adiar heroicamente o final trágico. Porém, não é só a morte que esmorece o sonho de um futuro garantido e conquistado de uma vez por todas: o título deste texto aponta para a necessidade de fundamentar a concepção apocalíptica da história numa teoria do mal radical. A matriz religiosa desta teoria da natureza humana - a grande lacuna da filosofia de Marx - é sobejamente conhecida, a doutrina do pecado original, e o próprio Kant que a formulou reconheceu a sua derivação cristã. Porém, como nos movemos no horizonte do Apocalipse sem salvação possível, rejeitamos a concepção optimista da história que lhe é subjacente: não há redenção do homem nem aqui na terra, nem noutro lugar ou não-lugar qualquer. Hannah Arendt retomou a teoria kantiana do mal radical, convertendo-a na teoria da banalização do mal, para condenar justamente as doutrinas do progresso. O que aproxima Konrad Lorenz da filosofia de Kant não é apenas o seu realismo crítico que empresta uma base biológica à doutrina kantiana das categorias e das formas a priori da sensibilidade, mas fundamentalmente a sua teoria do instinto agressivo do homem. A antropologia filosófica - com excepção das primeiras obras de cariz antropológico de Paul Ricoeur e da filosofia pessimista de Schopenhauer - nunca pensou a sério as estruturas fundamentais do mal: a hermenêutica e a desconstrução têm privado a Filosofia dos conhecimentos sobre a agressão e a violência elaborados pelas ciências biológicas e pelas neurociências. O diálogo produtivo da Filosofia com as ciências biomédicas é fundamental para reformular a teoria do mal radical, não com o objectivo prático de neutralizar farmacológica e neuro-quimicamente a maldade humana, propondo uma utopia química, cujo resultado final será encurtar o caminho para a catástrofe final, mas com a finalidade de definir novas metas de humanização que a grande política deve implementar. A sociedade metabolicamente reduzida gerou expectativas e ilusões nas "suas" mónadas alucinadas que não pode satisfazer, a não ser precipitando a catástrofe final através da frustração geradora de violência e de terrorismo: o sonho de felicidade universal e de bem-estar é uma força diabólica que está a mergulhar o mundo na violência e no caos. O que ontem foi utopia é hoje um terrível pesadelo: os vídeos de jovens a espancar outros jovens mostram o fracasso total das políticas de educação. Sem punição e esforço, habituado a viver desde o berço até à morte uma vida fácil, o homem não sabe sentir a alegria de pertencer a um colectivo que o transcende: os que lutaram ontem contra a punição - como se o homem fosse um ser bom por natureza - abriram as portas da Casa do Homem ao Diabo Antropogénico Aniquilador, o anti-Homem, o cérebro réptil e paleo-mamiliano do modelo evolutivo do cérebro triuno de Paul MacLean. A grande política deve corrigir os erros colossais cometidos pela pequena política do passado recente e isto se quiser adiar a catástrofe final, preparando os homens para fazer face à revolta da natureza contra o homem, a força incontrolável que desde o início da aventura humana sobre a terra a condena à aniquilação total. O homem é uma bio-figura passageira nesta imensa aventura biológica que se desenrola há muito tempo neste belo planeta do sistema solar chamado Terra.

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 29 de maio de 2011

Ainda sobre a Língua Portuguesa

«A autora do livro “Por uma vida melhor”, que foi distribuído pelo MEC recentemente, quer abolir o que ela chama de “preconceito linguístico”. Para tal, ela imagina que o melhor método é dizer que ninguém mais escreve errado, ou seja, que o “certo” e o “errado” devem ser abolidos da escola, em se tratando do uso de nossa língua. A intenção da autora é boa, mas o caminho que ela pega não é útil. E a sua inutilidade vem do uso pouco aconselhável que ela faz do termo “preconceito”.» (Paulo Ghiraldelli Jr)

Paulo Ghiraldelli Jr escreveu este texto sobre O Tal do Preconceito Linguístico, um tema que parece estar a dividir os brasileiros e que já tinha sido tratado neste texto: A Corrupção também na Língua Portuguesa. Como não conheço o livro Por uma Vida Melhor, distribuído pelo MEC do Brasil, devolvo a palavra aos brasileiros que o leram e o criticaram. Partilho a defesa da "pureza" da língua portuguesa, mas não acompanho de perto a argumentação que Paulo Ghiraldelli Jr dirige contra o livro: o texto de Paulo Ghiraldelli Jr vale mais pela defesa da integridade da língua portuguesa - a norma culta da língua - do que pela crítica do livro em questão. O preconceito linguístico que a autora do livro pretende abolir por decreto acaba por entrar na própria argumentação de Paulo Ghiraldelli Jr, contaminando-a e tornando-a opaca em termos de inteligibilidade: o preconceito como pré-conceito não é o mesmo que preconceito social. (Pré-conceito é todo o stock de conhecimentos prévios que possuo e que me permite apropriar toda a tradição, através do método da pergunta e da resposta. Ora, não vejo como pessoas destituídas de esquemas linguístico-cognitivos possam ler e travar um diálogo produtivo com a tradição: uma língua(gem) pobre não pode apropriar-se da riqueza daquilo que foi dito numa língua complexa e rica.) Se a autora do livro os baralha e os confunde - estes dois sentidos do preconceito, claro!, Paulo Ghiraldelli Jr não consegue livrar-se dessa rede conceptual e politicamente confusa, ficando demasiado "pegado" ao termo, como se a ideia da autora fosse efectivamente "boa" - o pré-conceito politicamente defeituoso não tematizado e não problematizado pelo filósofo brasileiro. Por isso, prefiro o texto apresentado anteriormente: ele abre o horizonte linguisticamente alargado que o texto de Paulo Ghiraldelli Jr fecha. Daí que tenha escolhido esta estrutura do Parque da Cidade do Porto para ilustrar este post: os brasileiros são co-responsáveis pela integridade da língua portuguesa. Ai, Ai, tanta "pega" inútil! Afinal, o tal (do) preconceito linguístico é, ele próprio, um preconceito não tematizado: aprender a falar e a escrever correctamente a língua portuguesa não é preconceito; preconceito é dizer aos oprimidos que falam e escrevem bem, quando na verdade eles revelam um fraco desempenho linguístico, conservando-os assim presos na teia da ignorância. Como é que pessoas com baixo desempenho linguístico podem aprender filosofia, lógica, matemática e ciências? A autora do livro e todos aqueles que a seguem fazem o jogo dos opressores internos e externos. Com uma tal pedagogia da abolição do esforço e do rigor, o Brasil corre o sério risco de não conseguir acompanhar os países desenvolvidos.

J Francisco Saraiva de Sousa

Teologia Feminista

«Teologia feminista é o esforço para repensar as religiões e a teologia a partir de um referencial não patriarcal. O advento da teologia feminista se deu quando a dimensão sexual dos comportamentos, as questões relativas à demografia, à sexualidade e à limitação da natalidade começaram a encontrar sérias barreiras provindas das igrejas cristãs e, particularmente, da Igreja Católica Romana. A teologia feminista é um movimento de contracultura no interior mesmo da cultura religiosa vigente.» (Cláudio, Zekzander)

«O Marxismo não é um ateísmo tal como a física moderna não é uma física anti-aristotélica. (.../...) Teoricamente falando, o marxismo não é um ateísmo, é uma doutrina que, na medida em que a religião existe como obstáculo, se vê obrigado a lutar contra ela. É preciso que isto se diga porque é verdade.» (Louis Althusser)

Tendo como imagem de fundo a Pia Baptismal da Sé-Catedral do Porto, recomendo vivamente a leitura deste texto do meu amigo de luta, Cláudio, autor do blogue Zekzander: Teologia Feminista - um outro olhar sobre a religião. Infelizmente, a filosofia não tem dado a atenção necessária às novas teologias, algumas das quais se servem de determinadas filosofias - incluindo a filosofia de Marx - para renovar e actualizar a mensagem cristã. Apesar do seu ateísmo teórico - ou não (Althusser)!, a filosofia de Marx não permite fundamentar nenhuma teologia. Independentemente de ser patriarcal ou feminista, a teologia é, para o marxismo, uma «ciência sem objecto»: emprestar a feminidade a Deus não altera substancialmente o nosso posicionamento filosófico e político perante a teologia feminista. Mas reconheço ser necessário desconstruir a teologia feminista, pelo menos para a enterrar de vez. E, pessoalmente, "prefiro" (sabendo que não se trata de uma mera questão de preferência pessoal!) um Deus masculino, tal como se revelou efectivamente na história dos homens, porque Ele permite compreender real e criticamente a história da religião monoteísta na sua conexão essencial com o poder político. O discurso feminista ofusca mais do que esclarece a história da exploração e da opressão, fazendo falsamente dela a história da luta dos sexos, em vez de a ver como história da luta de classes, como se pretendesse substituir a dominação masculina pela dominação feminina. O feminismo não é capaz de romper com o discurso da dominação: ele é tão totalitário quanto o seu pretenso opositor. Homens e mulheres carrascos são a mesma coisa - opressores. Neste sentido, uma sociedade governada por mulheres não seria melhor que a sociedade governada por homens, e um(a) Deus(a)-Mãe - curiosamente esta figura não é estranha ao catolicismo que ousa falar da Mãe de Deus, a blasfémia das blasfémias! - não seria melhor que o "nosso" Deus-Pai. Porém, não é Deus - e muito menos a questão ridícula do sexo de Deus - que está em causa numa controvérsia científica ou filosófica, mas a ideologia dominante que o usa para justificar a opressão e legitimar o poder instituído. A teologia da libertação soube libertar Deus da prisão do poder instituído e fazer dele o atiçador teológico do protesto contra a opressão.

Anexo. A desconstrução dos feminismos é uma tarefa urgente de todo o pensamento que ainda merece ser chamado filosófico. A noção de história como guerra dos sexos é uma invenção da sociedade metabolicamente reduzida, a sociedade condenada a devorar-se a si própria nesse fastidioso processo de trocas metabólicas do homem com a natureza e com os outros homens: o pensamento de esquerda que abraça o feminismo perde a sua identidade histórica e faz o jogo necrófilo do capitalismo. Foi a pensar neste perigo real que, num texto anterior, avancei com uma nova tese sobre o objectivo derradeiro da nova prática política marxista: adiar a catástrofe final. (Sim, é verdade que o recurso a Althusser me tem ajudado a substituir a "escatologia" pelo Apocalipse! Um marxismo apocalíptico? Devo confessar que o conceito me seduz, tal como seduziu Ernst Bloch quando escreveu a última secção de O Espírito da Utopia: Karl Marx, A Morte e O Apocalipse. Mas há outra influência que não tem sido nomeada: o pensamento (proto-filosófico) dos astecas.)

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Estou assustado com Passos Coelho... e o PSD

Votar em Passos Coelho é como escolher aleatoriamente na rua de uma cidade portuguesa um transeunte desconhecido: o risco é total, porque podemos tanto ter sorte como também ser brindados com o azar. Ora, Passos Coelho tem revelado no decurso desta triste campanha eleitoral falta de preparação para desempenhar o papel de Primeiro-Ministro: Passos Coelho quer governar, não porque tenha um projecto nacional, mas porque acha "giro" ser Primeiro-Ministro. Mas isto já todos sabem, sobretudo aqueles que lhe chamam "betinho": o que me assusta mais é a irresponsabilidade que tem revelado em matérias tão sensíveis como são a avaliação dos professores ou a questão do aborto. Embora não tenha um projecto nacional, a não ser a radicalização das medidas neoliberais do memorando da troika, Passos Coelho promete tudo - incluindo o que não pode cumprir - para caçar os votos dos portugueses: homem formado no e pelo aparelho partidário, Passos Coelho joga em todas as frentes sem conhecer as regras elementares dos respectivos jogos. Infelizmente, os políticos portugueses mais jovens não são mais competentes do que os políticos das gerações anteriores: o actual debate político faz lembrar o fatídico debate político da I República, com os partidos políticos em guerra permanente uns com os outros, sem levar em conta o interesse nacional. Em Portugal, a democracia tem gerado uma luta pelo poder que reveste a forma de uma luta pelo emprego público. Em vez de fazerem política, os políticos portugueses andam à caça de oportunidades e de empregos bem-remunerados. A política-caça não só gera a corrupção generalizada, como também quebra a continuidade das políticas e das reformas estruturais tão necessárias ao desenvolvimento nacional. Quando pretende realizar um novo referendo sobre o aborto, pelo menos durante um período do dia de ontem, Passos Coelho está a sacrificar o interesse nacional - a continuidade de políticas já implementadas e susceptíveis de melhoramentos qualitativos - no altar da caça ao voto de determinados sectores sociais do eleitorado: o oportunismo político bloqueia o futuro de Portugal. O PSD finge não ter nada a ver com a corrupção, mas esta é uma feia herança do cavaquismo, bastando pensar no buraco do BPN: os fundos comunitários evaporaram-se algures, talvez nos bolsos de particulares. A verdade é que Passos Coelho não é uma alternativa credível a José Sócrates e não digo isto por me sentir particularmente contente: trata-se de uma mera constatação política. A sociedade portuguesa é uma sociedade bloqueada: aqueles que alcançam as esferas do poder imobilizam tudo à sua volta e queimam a terra para não terem adversários com mérito. Portugal é vítima desta política de terra queimada. Será necessário um dia pensar objectivamente as forças que bloqueiam a sociedade portuguesa e que lhe negam a via do desenvolvimento. De momento, bastará dizer que o grande bloqueio reside nos próprios portugueses: a implementação indiscriminada das medidas propostas pela troika irá evidenciar a violência inerente à sociedade portuguesa. O discurso alucinado de um país moderno e desenvolvido - o discurso de José Sócrates que afinal também é o de Passos Coelho numa versão menos coerente e mais trapalhona! - gerou frustração e esta frustração começa a manifestar-se em actos violentos: os portugueses devem preparar-se para o pior. A violência confinada até aqui na esfera doméstica - o número de homicídios bárbaros está a crescer! - ameaça invadir toda a vida quotidiana dos portugueses. A sociedade portuguesa é demasiado débil, pobre e desigual para sofrer medidas neoliberais: o neoliberalismo caseiro do PSD - aliás um partido mais feudal do que liberal ou social-democrata! - ameaça mergulhar o país na pobreza mais abjecta e na violência.

Os portugueses não podem cair no erro fatal de permitir a formação de uma maioria absoluta de Direita no próximo Parlamento: as sondagens mostram claramente que os portugueses querem forçar os partidos a procurar entendimentos inter-partidários. Penso que o eleitorado português tem alimentado a degradação da vida pública, dando o seu voto aos partidos que alimentam o estado de alucinação colectiva, mas neste caso particular concordo com a intenção de voto: não dar a maioria absoluta a nenhum partido do arco do poder e negá-la à Direita que sonha com a concentração do poder político - um Presidente, um Parlamento e um Governo de Direita. Num cenário em que os lideres políticos não merecem confiança, até porque não são competentes, o melhor é obrigá-los a um entendimento inter-partidário e, se possível, forçar os próprios partidos políticos a substitui-los na chefia do próximo governo. Os portugueses são, pelo menos teoricamente, soberanos no uso que pretendem fazer dos seus votos: o meu voto não pertence a José Sócrates - cujo discurso optimista me arrepia profundamente! - mas ao Partido Socialista. É certo que me movo no terreno do chamado "centrão", mas não me identifico política e ideologicamente com ele. Aliás, penso que o "centrão" é a maior força de bloqueio nacional: o eleitorado do centro é responsável pela decadência nacional, porque vota alternadamente no PS ou no PSD em função de interesses corporativistas completamente estranhos e adversos ao interesse nacional. Quando digo que o meu voto pertence ao PS, faço-o na esperança remota de que o PS resolva assumir uma nova atitude política de esquerda perante o país. (A formação e a composição das listas partidárias do PS e do PSD não permitem depositar a nossa confiança no próximo Parlamento que será o agravamento e a ruína da alucinação nacional!) Tal como o voto de tantos outros portugueses, o meu voto pretende impedir a formação de uma maioria absoluta da Direita feudal portuguesa. Apesar de tudo, votar no PS é garantir alguma prudência na implementação das terríveis medidas propostas pela troika e fechar a porta ao aventureirismo da Direita sedenta de poder. Neste cenário politicamente indigente, é o melhor que posso ou que podemos fazer nestas eleições legislativas: não dar a palavra à Direita reaccionária, aventureira e oportunista! Faz um uso racional do teu voto se quiseres ter futuro...

J Francisco Saraiva de Sousa

Futebol Clube do Porto: The Best (Tina Turner)

Futebol Clube do Porto: A Festa no Avião

Porto: Ribeira

A Beleza da Ribeira do Porto: OPorto, Portugal.

A Foto Clássica do Porto

A foto clássica da Cidade do Porto em dia de chuva: Rio Douro, Centro Histórico e Ponte D Luís I, OPorto, Portugal.

O nosso destino é o Porto

Praia do Castelo do Queijo: OPorto, Portugal. Porto: a Cidade-Estado implantada em território português.

Porto: Casa da Música

O nosso destino é o Porto: OPorto, Portugal.

Porto: Largo do Colégio

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A Corrupção também na Língua Portuguesa

«Também gosto de ler os livros em português de Portugal, como os romances de Saramago, que tão suave e agradavelmente sabia se expressar, e percebo o quanto perdemos não só em vocabulário como em amor à nossa própria língua e que a nossa distância de Portugal não é somente física. /Porque um povo que não ama a própria língua não pode amar a si próprio.» (Fausto Brignol)

Aconselho a leitura deste belo texto de Fausto Brignol: A Corrupção também na Língua. Uma tese semelhante à apresentada pelo Fausto Brignol encontra-se esboçada neste texto: Cultura e Literatura Portuguesas. O Brasil precisa efectivamente cuidar mais da língua portuguesa e penso que os contactos entre as elites intelectuais dos países que falam a língua portuguesa - Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor - poderão desempenhar um papel determinante no fortalecimento de uma comunidade lusófona alargada. Infelizmente, os Ministérios da Educação e da Cultura dos dois países - Portugal e Brasil - converteram abusivamente a pedagogia do oprimido de Paulo Freire em pedagogia do atrasado mental. O resultado é, como observa Fausto Brignol, o confinamento dos oprimidos no seu próprio ghetto cultural. Usando a terminologia feliz da Estrutura do Discurso Pedagógico de Basil Bernstein, podemos dizer que as pedagogias administrativas dos Ministérios da Educação recomendam e fomentam - entre os oprimidos - os códigos restritos, em vez dos códigos elaborados, operando assim o nivelamento por baixo. A regressão cognitiva e a atrofia dos órgãos mentais estão na ordem do dia: os opressores querem abolir a cultura para vencer facilmente a resistência contra a sua dominação. Penso, falo e escrevo correctamente a minha língua materna, logo existo em possibilidade para a autenticidade: a correcção de Descartes tão necessária à luta revolucionária!

Anexo. Para facilitar o acesso ao texto, sobretudo a quem tem um computador lento, vou reproduzi-lo integralmente aqui: «Quando erramos, erramos. Ou não erramos? Há quem pense que uma república, por ser coisa do povo – res publica – no ensino da sua língua deve acompanhar a pobreza mental de quem não sabe ler, escrever e falar. O raciocínio parece ser o seguinte: se a maioria do povo não sabe falar (muito menos ler e escrever) o português correto, adote-se o não falar corretamente, o não escrever corretamente como sendo o correto, porque a maioria deve mandar no país, uma vez que a República deve pertencer ao povo.
«E assim pensando, os professores do MEC, do alto das suas altas graduações de pós-pós-doutorado, patrocinaram a edição de um livro didático que ensina que o errado também poderá ser certo, desde que você saiba falar (e talvez escrever) apenas o errado. A idéia é dizer ao povo, em sua grande maioria, que ele manda, mesmo que não saiba pensar, raciocinar e articular uma frase em português correto. Porque o correto poderá estar errado e o errado poderá estar certo, desde que o povo assim decida.
«O volume Por Uma Vida Melhor, da coleção Viver, Aprender, mostra ao aluno que não há necessidade de se seguir a norma culta para a regra da concordância. Os autores usam a frase “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” para exemplificar que, na variedade popular, só “o fato de haver a palavra os (plural) já indica que se trata de mais de um livro”. Em outro exemplo, os autores mostram que não há nenhum problema em se falar “nós pega o peixe” ou “os menino pega o peixe”. Segundo os autores, o estudante pode correr o risco “de ser vítima de preconceito linguístico” caso não use a norma culta. O livro da editora Global foi aprovado pelo MEC por meio do Programa Nacional do Livro Didático.
«Mais um ato de demagogia tipicamente petista. É mais fácil concordar com o que está errado do que ensinar o que é certo. E assim teremos uma segunda língua, alternativa aos analfabetos funcionais, que lembrará o português. E ficará tudo mais fácil para todos. Para que ensinar concordância, regência, análise sintática, que é tão difícil até para os professores? Morfologia...Sintaxe... E os verbos... São tão infinitivos que a sua tendência será desaparecer no infinito. É muito difícil aprender português. Então, para que aprender?
«Convenhamos, a linguagem vem em primeiro lugar, depois é que a língua é formada. Você pode se comunicar através de gestos, olhares, sons guturais e, desde que consiga fazer-se entender dentro do seu grupo social através de uma linguagem primitiva que facilitará essa comunicação... estamos conversados. Daí, para entender a língua conseqüente a essa linguagem e outras complicações ortográficas e gramaticais, deixemos isso para os idiotas que gostam de ler e de escrever. Vamos falar brucutu, inventar o nosso patoá. É mais fácil.
«É mais fácil, também, corromper e ser corrompido e estamos no Brasil onde quem não é corrupto é considerado bobo. Então, vamos corromper também a língua, para que fique bem entendido que a corrupção faz parte da nossa linguagem e entendimento enquanto brasileiros.
«Temos ótimos exemplos de corrupção também no modo de falar dos nossos presidentes. Lula não sabe falar e quando diz alguma coisa, como, por exemplo: “cumpanheiros, nóis tamu aquipra verquenhé qui póde mais!”, é perfeitamente entendido e ovacionado delirantemente pelos seus iguais. É uma língua própria, que está pegando e agora está sendo gramaticalizada, tamanho o exemplo do nosso ex-presidente. E a nossa presidente, que prefere ser chamada de ‘presidenta’, tem o seu próprio linguajar, que alguns apelidaram de “dilmês” – tão graciosa é a maneira como se expressa. Graciosa e ininteligível, muitas vezes, mas graciosa. E o exemplo sempre vem de cima.
«Mesmo que o que venha de cima seja um cacho de bananas na nossa cabeça, indicado pelos especialistas em cachos de bananas para parar o raciocínio supérfluo. Além disso, banana é rica em potássio e fibras. E precisamos de fibra para agüentar este demagógico e corrupto Brasil.
«Tão demagógico que de tanto falar em Paulo Freire, autor de “A Pedagogia do Oprimido”, o PT fez exatamente o contrário: ensina aos oprimidos que a opressão faz bem. E diz a eles que podem optar por continuar como oprimidos até na língua, se assim desejarem. Para não correrem o risco de preconceito lingüístico, poderão criar a sua própria língua – baseada na gíria e na preguiça mental. E, teoricamente, falando e escrevendo como quiserem, os oprimidos se sentirão livres de qualquer preconceito lingüístico. E colocarão a si mesmos em um guetto mental e cultural.
«Mas como os oprimidos não sabem que são oprimidos, porque a pedagogia da ditadura civil continua a ser a mesma pedagogia da opressão da ditadura militar, e não a pedagogia proposta por Paulo Freire, acreditarão que falar e escrever de qualquer jeito é uma forma de liberdade. Só não sabem, e continuarão a não saber, que, na verdade, é mais uma maneira de opressão e de discriminação. Já não basta ser pobre e excluído; é necessário que fale e escreva errado, com o aval e os sorrisos do governo. Ghetto cultural.
«Na verdade, não importa ao Governo educar corretamente os jovens e adultos. Importa que passem de ano de qualquer maneira e corram para o mercado de trabalho, ostentando o seu diploma. Quanto mais pessoas procurando emprego, menor será o salário, devido à grande concorrência por vagas. É a lei da oferta e da procura também para o trabalhador.
«Às vezes, quando assisto a um programa sobre a realidade dos países latino-americanos fico surpreso com a facilidade e riqueza de vocabulário com que os irmãos à nossa volta falam o espanhol, com pequenas diferenças de país para país, que não chegam a se configurar em dialetos, mas diferenças como o nosso português do Brasil em relação ao português de Portugal, Angola, Moçambique, etc. E as pessoas entrevistadas são simples, às vezes muito pobres, mas cultuam a sua língua como quem cuida de um filho, porque falar bem a própria língua – embora o atual Ministério de Educação e Cultura pense o contrário – é uma questão de cultura.
«E não percebo que usem gíria. Não tanto como nós. Eles gostam de falar espanhol, de se expressar em espanhol. Não tratam a sua língua como um estorvo, exatamente como nós, ou conforme as últimas orientações do MEC. Mas aqui é uma questão de corrupção até na língua.
«Também gosto de ler os livros em português de Portugal, como os romances de Saramago, que tão suave e agradavelmente sabia se expressar, e percebo o quanto perdemos não só em vocabulário como em amor à nossa própria língua e que a nossa distância de Portugal não é somente física.
«Porque um povo que não ama a própria língua não pode amar a si próprio.
«À medida que esse desamor aumenta, diminui a sua auto-estima, diminui-se ante si mesmo. E passa a falar e a escrever atravessado, como nas mensagens da Internet, e a desfazer-se do seu orgulho e a sentir-se pequeno, muito pequeno e a adotar outras línguas, como o inglês, por entender, em sua sublime ignorância, que falar corretamente o português é errado. E o errado passa a ser o certo e a identidade nacional dilui-se.
«Talvez seja este o objetivo final deste governo que vai para dez anos: acabar com o que resta de orgulho pátrio. Porque pessoas sem qualquer orgulho, sem referências que não sejam as chuteiras e os cabelos dos jogadores de futebol, são mais fáceis de manipular». Fausto Brignol.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 24 de maio de 2011

Pensar o Futuro

«Os maiores filósofos nasceram sem pai e viveram na solidão do seu isolamento teórico e do risco solitário que assumiram perante o mundo». (Louis Althusser)

«Se quiseres conhecer o teu inimigo, terás que penetrar no país do teu inimigo». (Lenine)

«Os assassinados são defraudados até mesmo da única coisa que a nossa impotência pode garantir-lhes: a recordação». (Theodor W. Adorno)

A Ponte de D Luís I fornece-me a imagem que pretendo converter em conceito: pensar uma nova ligação entre o passado e o futuro numa conjuntura política e social pouco favorável à mudança qualitativa. É certo que ando preocupado com a elaboração de uma nova Filosofia da História, mas não é esta tarefa teórica que me proponho levar a cabo, pelo menos neste texto. De momento, interpreto a necessidade de pensar a ligação entre o passado e o futuro como rejeição de toda a filosofia pós-marxista, sobretudo daquelas filosofias que reclamam a herança de Nietzsche, o monstro dos monstros. (Excluo do campo da Filosofia a filosofia analítica anglo-saxónica que é basura!) Acabo de fazer uma opção: escolho Marx contra todas as figuras dominantes do pensamento filosófico dos últimos 50 anos. Porém, a escolha de Marx está condicionada pela rejeição filosófica e política do presente. Deste modo, a nova ligação que pretendo pensar diz respeito à ligação entre o passado e o futuro da teoria crítica: o que pretendo pensar é uma nova prática política para este mundo alucinado que caminha para a catástrofe. A ideia de catástrofe empresta desde logo um cunho pessimista à filosofia da história subjacente à necessidade de pensar uma nova prática política marxista: o optimismo que Marx partilhava com a filosofia das luzes é rejeitado em bloco. A rejeição do mundo presente não é apenas a rejeição do neoliberalismo, esse monstro tecno-financeiro que mergulhou o mundo no caos da miséria e da pobreza, mas também a rejeição das duas grandes correntes do pensamento político que se reclamam de Marx: o comunismo e a social-democracia. Sim, rejeito categoricamente o comunismo e a social-democracia que, juntamente com o neoliberalismo, ajudaram a moldar esse monstro sem futuro que é o mundo presente, mas, apesar de rejeitar o passado político do marxismo, permaneço fiel ao espírito crítico de Marx quando conservo a ligação orgânica entre a Filosofia e a Política. Não estou a negar as virtudes do comunismo e da social-democracia contra os excessos necrófilos do neoliberalismo: o que rejeito é a terrível ideia do Fim da História que se apoderou até mesmo do neoliberalismo de Francis Fukuyama pela via de Alexandre Kojève. Althusser teve o grande mérito de ter denunciado este modo de ler Marx ou mesmo de ler Hegel: «Nele - em Kojève - tudo girava em torno da luta de (vida ou de) morte e do Fim da História, a que ele atribuía um espantoso conteúdo burocrático. Terminada a história, quer dizer, a história da luta de classes, a história não acaba, mas nada mais se passa nela a não ser a rotina da administração das coisas (viva Saint-Simon!). Uma forma de associar sem dúvida os desejos do filósofo e o estatuto do grande burocrata.»

Rejeitar o Fim da História é rejeitar o conteúdo tecno-burocrático que lhe atribuiu Kojève, abrindo o caminho para a emergência desta nova classe dirigente (James Burnham, Milovan Djilas) que são os economistas, os administradores e os gestores públicos e privados: a administração das coisas de Saint-Simon foi assumida escrupulosamente por esta nova classe de dirigentes tecnocratas, cujo economicismo monetarista sufocou a imaginação política e liquidou a economia, como se o fim da história - o mundo pós-histórico - fosse a derradeira realidade do mundo humano: «Na época em que redigi essa nota (1946), o retorno do homem à animalidade não me parecia impensável como perspectiva de futuro (aliás, mais ou menos próximo). Mas compreendi pouco depois (1948) que o fim hegeliano-marxista da história não estava para vir, mas já é presente» (Kojève). A emergência desta nova classe dirigente produziu efectivamente aquilo a que chamo sociedade metabolicamente reduzida, o mundo pós-histórico que Kojève pensou como retorno do homem à animalidade: «Se admitirmos "o desaparecimento do homem no fim da história", se afirmarmos que "o homem continua vivo enquanto animal", especificando que "o que desaparece é o homem propriamente dito", não podemos dizer que "tudo o resto pode manter-se indefinidamente: a arte, o amor, o jogo, etc.". Se o homem volta a ser um animal, toda a sua arte, amor e jogos também voltam a ser puramente naturais. Logo, é necessário admitir que, após o fim da história, os homens construirão os seus edifícios e as suas obras de arte como os pássaros constroem os seus ninhos e as aranhas tecem as suas teias, executarão concertos musicais a exemplo das rãs e das cigarras, brincarão como brincam as crias de animais e entregar-se-ão ao amor como fazem os animais adultos. (.../...) "O aniquilamento definitivo do homem propriamente dito" significa também o desaparecimento definitivo do discurso (Logos) humano em sentido próprio. Os animais da espécie Homo sapiens reagirão por reflexos condicionados a sinais sonoros ou mímicos, e os seus falsos "discursos" serão semelhantes à pretensa "linguagem das abelhas" O que desaparece então não é apenas a filosofia ou a busca da sabedoria discursiva, mas também a própria sabedoria, porque já não haverá nesses animais pós-históricos "conhecimento (discursivo) do mundo e de si"» (Kojéve). A profecia do fim da história de Kojève cumpriu-se no mundo presente, onde os homens se comportam como meros animais que reagem aos estímulos-sinais por meio de reflexos condicionados. Porém, a sociedade administrada não interrompeu a marcha triunfal dos vencedores: a história continua a ser o palco das classes dominantes. Um pensamento dialéctico que conceba o retorno do homem à animalidade auto-liquida-se, na medida em que nega a abertura aos horizontes históricos possíveis, bem como o risco permanente que lhe é inerente, imposta pelo facto do homem só poder criar a sua humanidade negando-se como animal. A vitória da natureza - mediada pelas tecnologias perversas do poder instituído - sobre a história não só liquida a dialéctica, como também aponta no sentido da catástrofe e do fim da aventura humana sobre a terra. A vitória contínua dos vencedores conduz-nos à auto-destruição e, neste sentido, o capitalismo tornou-se inimigo mortal da humanidade. É muito difícil imaginar um futuro liberto no quadro global de um mundo capitalista: o futuro não está garantido, sobretudo quando os homens abdicam da sua humanidade para viverem como animais saciados e satisfeitos. Mas até mesmo esta ilusão da saciedade plena - alimentada pelo crédito ao consumo - não tem futuro garantido. O futuro que podemos vislumbrar a partir deste presente indigente promete ser pior do que o passado, o que significa que não há garantias históricas. E, na ausência dessas garantias históricas, já não podemos confiar na possibilidade de realização de uma sociedade comunista, sobretudo quando é pensada como reconciliação plena.

Althusser definiu o materialismo como a filosofia que não alimenta ilusões: as grandes ilusões do nosso tempo indigente são a confiança neoliberal depositada na economia de mercado e a apologia do sector financeiro e da bancocracia. A nova prática política não deve abandonar a crítica marxista do capitalismo: o capitalismo e as forças políticas da Direita geram e perpetuam o mal-existente. A escolha de Marx garante a não-capitulação da filosofia perante o capitalismo e a sua miséria cultural. Neste sentido, não posso estar completamente de acordo com Kojève quando escreve que «é na falta de lembrança (ou de compreensão) histórica que está o perigo mortal do niilismo ou do cepticismo, que pretendem tudo negar sem nada conservar, ainda que sob a forma de lembrança. Uma sociedade que passa o seu tempo a escutar o intelectual radicalmente não-conformista, que se compraz em negar (verbalmente!) qualquer dado (até o dado sublimado mantido na lembrança histórica) só porque é um dado, acaba por soçobrar na anarquia inactiva e desaparece. Da mesma forma, o revolucionário que sonha com uma "revolução permanente", que nega todo o tipo de tradição e não leva em conta o passado concreto a não ser para o suprimir, acaba necessariamente no nada da anarquia social ou na sua própria anulação, física ou política. Só o revolucionário que consegue manter ou restabelecer a tradição histórica, conservando numa lembrança positiva o presente dado que ele mesmo relegou ao passado pela sua negação, consegue criar um novo mundo histórico capaz de existir». O pensamento e a prática política marxistas têm a sua própria tradição histórica, cujo esquecimento conduz efectivamente ao niilismo ou ao cepticismo: as filosofias de cunho nietzschiano que dizem Sim à vida - como as de Deleuze e de Foucault, duas figuras de destaque do pensamento vagabundo (nómada? débil?) - perderam esse contacto com o legado histórico e, na ânsia de gerar pensamentos novos, acabaram por soçobrar na anarquia inactiva, sem contacto real com as transformações sociais que aconteceram desde o final da II Guerra Mundial. A recusa da história - e o discurso do fim da história mais não é do que recusa da história! - conduziu à apologia da vida, não de uma vida melhor, mas sim da vida tal como é vivida numa sociedade metabolicamente reduzida. É certo que o esquecimento da tradição histórica conduz à anarquia inactiva e à perda de identidade, mas o conceito de revolução permanente tal como Marx o utilizou no Manifesto do Partido Comunista tem hoje mais pertinência teórica e política do que o tema de uma revolução social conduzida pelo proletariado. Recusar a história é imobilizá-la e imobilizar a história é fazer a apologia ideológica do mundo histórico actual, como se ele tivesse realizado todas as aspirações do homem sofredor de ontem, de hoje e de amanhã. As filosofias pós-marxistas que recusaram a história são meras formas ideológicas que devem ser responsabilizadas pela miséria do presente, tornada visível pela crise financeira de 2007-08, não só porque alimentaram as ilusões promovidas pela sociedade de consumo e pela bancocracia, como se a pobreza e a miséria tivessem sido efectivamente abolidas, mas também porque esqueceram o legado histórico e, sobretudo, o sofrimento passado. Quando olhamos para trás, isto é, para o passado, o que vemos é a marcha triunfal dos vencedores. Tanto Marx como Engels estavam cientes de que a história avança pelo seu lado mau: «a História é talvez a mais cruel de todas as deusas; ela conduz o seu carro triunfal sobre montes de cadáveres, não só na guerra mas também nos períodos de desenvolvimento económico pacífico» (Engels). A história é catástrofe e, num mundo abandonado pelos deuses, a humanidade está irremediavelmente condenada à morte - individual e colectiva - e à extinção em massa: adiar de forma consciente e resoluta esse final trágico da aventura humana sobre a terra constitui uma prioridade da política marxista. Enquanto agentes históricos, dialécticos e mortais, não podemos garantir a continuidade da aventura humana: qualquer tentativa de colonizar o futuro é, de certo modo, inglória. À luta permanente por um mundo melhor jamais alcançado, devemos acrescentar um elemento utópico concreto: a restituição integral da história no tempo do presente. Não vale a pena sacrificar mais a humanidade sofredora em nome de um futuro sempre por vir que não nos pertence, porque não o podemos controlar, tal como não controlamos a actividade dos vulcões da Islândia ou da Indonésia. A filosofia da história que estou a propor é, aparentemente, paradoxal: pensar a situação actual concebida e definida pela prática política marxista. Privilegiar o momento actual em detrimento de um futuro distante que não nos pertence não é de todo estranho ao próprio pensamento de Marx, mas a introdução da morte no seio do marxismo exige esta atenção à vida (Bergson) no momento actual. Porém, com este desvio teórico, não estou a abrir as portas ao pragmatismo, porque exijo uma prática política que adie a catástrofe final sem permitir a repetição do passado, isto é, a regressão; pelo contrário, podemos e devemos resgatar todo o sofrimento do passado. É certo que não podemos alterar o passado que já foi, mas podemos fazer tudo para que o sofrimento passado das vítimas da história dos vencedores não tenha sido em vão: a consciência histórica responsabiliza-nos perante o tribunal da razão dialéctica e leva-nos a lutar pela interrupção no momento presente dessa marcha triunfal dos carrascos que nos exploram e oprimem. A prática política marxista - liberta da sedução pela lógica do progresso - não deve dar tréguas aos vencedores da história e esta luta não é uma luta adiada para amanhã, mas uma luta permanente que se trava no momento presente.

J Francisco Saraiva de Sousa

Entrevista: Pinto da Costa

RTP - ENTREVISTA: PINTO DA COSTA

Hoje não houve Prós e Contras: Fátima Campos Ferreira entrevistou o Presidente do Futebol Clube do Porto, Pinto da Costa. Os programas desportivos da SicNotícias e TVI24 debruçaram-se sobre esta entrevista, com o triste adepto do "clube rival" - não merece ser nomeado, tal é a sua maldição congénita - a "responsabilizar" os outros pelas derrotas do seu clube, o do sistema fascista. Quem nasceu na mentira desportiva não tem salvação: a sua vida será eternamente um jogo de mentiras, invejas e difamações. É preciso aprender a dizer Não aos difamadores que não sabem assumir responsabilidade pelos seus fracassos: os perdedores projectam sobre os outros - os que vencem por mérito - a sua própria experiência truncada e castrada, herdada do tempo sombrio da ditadura, sendo incapazes de fazer a experiência da liberdade e da verdade sem ter a protecção de um regime totalitário que lhes garanta a sua eterna mentira. A mentira inventada pelos difamadores é uma compulsão que se fecha à verdade e ao regime que a suporta: a democracia. Abraçar o Futebol Clube do Porto é um acto de libertação. Viva o FCPorto! Vem dançar com a tribo do Dragão azul e branco ao som do nosso hino e dos nossos cânticos tribais! Não queiras ser um mentiroso compulsivo! Liberta-te! Diz Sim ao FCPorto! A tribo do Dragão azul e branco está sempre a crescer em Portugal, na Europa e no Mundo Global: já somos 6 milhões de Super-Dragões jovens e cheios de Alegria! Juntos vamos conquistar a Europa e o Mundo! Somos portugueses, europeus e cidadãos do mundo orgulhosos!

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 21 de maio de 2011

Pela Transformação do Mercado do Bom Sucesso

«Um idealista é um homem que sabe ao mesmo tempo de que estação sai e qual é o seu destino; sabe-o antecipadamente e quando apanha o comboio, sabe para onde vai, uma vez que o comboio o leva. O materialista, pelo contrário, é um homem que apanha o comboio em andamento sem saber de onde vem nem para onde vai». (Louis Althusser)

Infelizmente, os auto-intitulados agentes culturais da cidade do Porto são geralmente figuras cinzentas e amarelas que cheiram a naftalina: o Movimento do Bom Sucesso Vivo (MBSV) é mais uma cristalização colectiva de figuras de naftalina que tudo fazem para bloquear o projecto de requalificação do Mercado do Bom Sucesso ou qualquer outro projecto de modernização da Cidade Invicta. A decadência cultural e económica do Porto e do Norte deve-se à acção destes idiotas culturais, alguns dos quais aproveitaram indevidamente as novas oportunidades para tirar um doutoramento, antes mesmo de concluir a licenciatura: o Porto Cultural tem estado entregue a esta ralé pseudo-cultural que perdeu há muito tempo o comboio em movimento. Aliás, o movimento do comboio do desenvolvimento assusta-a de tal modo que prefere imobilizá-lo, projectando o seu universo sombrio e depressivo para a cidade do Porto. A sua "cultura" é a cultura da imobilização: os idiotas culturais do Porto odeiam a cultura genuína que lhes é profundamente estranha e adversa. Os portuenses que queiram conquistar o futuro e garantir a criação de empregos devem erguer as suas vozes e as suas armas contra estes bandos de idiotas culturais que monopolizam a visibilidade da cidade do Porto. Chegou a hora de dizer "Basta!" e de expulsar estas figuras de naftalina dos palcos centrais da cidade do Porto: elas são a vergonha personificada da Cidade Invicta. O Mercado do Bom Sucesso e o Mercado do Bolhão devem ser requalificados: o Porto é sempre-já abertura à modernização.

Anexo. Já dediquei diversos textos e conferências à Escola do Porto e, quando o fiz, procurei requalificar o pensamento portuense, confrontando-o com o pensamento filosófico mundial, contra as patetices ditas por estas figuras portuenses de naftalina. Comigo elas não "tiram estilo", porque as reduzo facilmente à sua própria mediocridade. Porém, como perderam a vergonha, recusam ser "testadas", dizendo-se portadoras de um conhecimento interiorizado sem expressão pública. Infelizmente, há universidades privadas que passam diplomas a portadores deste tipo de conhecimento ultra-subjectivo - conhecimento que só existe para o seu suposto portador. Só nos resta rir destas figuras portadoras de conhecimento não-público.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 17 de maio de 2011

Prós e Contras: Vozes Portuguesas

A beleza da cidade do Porto é única no mundo, mas o Porto sofre de um defeito congénito: fazer parte de Portugal - o oásis da corrupção e da burrice hereditária, e estar neste momento entregue a portuenses verdadeiramente boçais. (Os portuenses que colonizam as instituições da Cidade Invicta não estão à altura da sua beleza: são feios, grotescos, sujos, burros e ordinários.) O cavaquismo consumou o bloqueio do Porto, centralizando tudo em Lisboa que cresceu deslumbrada com a sua própria demência e com os seus discursos mentirosos. Portugal é hoje um país demente e sem futuro: governantes e governados são o reflexo uns dos outros e os fenótipos nacionais reflectem fielmente a essência e o genoma dos portugueses: o terror do vazio de alma. As vozes portuguesas que Fátima Campos Ferreira reuniu neste debate Prós e Contras (16 de Maio) são, de um modo geral, vozes habituadas a opinar sem conhecimento, aliás muito idênticas às que se fazem ouvir no Porto Canal, na SICNotícias e na TVI. Portugal vai pagar muito caro por mais esta mentira - a de que as novas gerações estão bem preparadas. Preparadas para quê? Para consumir? Para ter emprego no Estado sem trabalho? Para exigir direitos? Para "inovar" - as chamadas indústrias criativas - fazendo do seu lixo mental e cognitivo arte do lixo? Para urinar nas ruas e beber até ficarem completamente bêbadas? Para fazer sexo furtivo em determinados lugares escuros das cidades? Para agredir verbalmente os supostos amigos ou colegas de trabalho e violar as companheiras/os? Para assediar sexualmente as pessoas subalternas, como fez o Presidente do FMI? Para bisbilhotar a vida alheia? Além disso, "quem" lhes deu essa suposta preparação? As universidades que reforçam a dose de estupidez do ensino secundário? As escolas indisciplinadas? Os professores que desistiram de ensinar conteúdos objectivos de conhecimento? Os professores cujos diplomas já são uma fraude? Sem exames e com as passagens de ano garantidas por decreto, em que consiste a preparação das novas gerações? Portugal não se livrou do analfabetismo: ontem eram os simplesmente analfabetos, hoje são os analfabetos funcionais, alguns dos quais sobre-diplomados, ontem os analfabetos eram humildes e trabalhadores, hoje os novos analfabetos são arrogantes, improdutivos e ordinários. A estupidez é uma constante da história de Portugal. Infelizmente, Portugal não foi governado nestes últimos 37 anos - ou mesmo durante toda a sua triste história, como lembrou uma Professora de História, por políticos competentes: os governos pós-25 de Abril lançaram-nos na alucinação colectiva. Depois de ter perdido as colónias, Portugal volta-se para a Europa em busca de uma tábua de salvação: a entrada na União Europeia e na zona Euro permitiu-lhe alimentar a sua alucinação colectiva através do endividamento externo e da destruição do seu tecido produtivo. Portugal viveu «em festa», como disse José Manuel Silva (Bastonário da Ordem dos Médicos), consumindo o que não produz e retomando por todo o lado as festas populares dos santos e o feio acto de urinar nas ruas: os portugueses endividaram-se para alimentar vidinhas de ilusão, dignas do pequeno tamanho dos seus cérebros medíocres. José Manuel Silva e Marinho Pinto (Bastonário da Ordem dos Advogados) defenderam a responsabilização das classes dirigentes pela miséria nacional, o primeiro acentuando a responsabilidade jurídica e criminal e o segundo, a responsabilidade política dos lideres políticos. Porém, apesar desta nuance, ficou no ar a ideia de que Portugal só mudará de rumo quando os políticos, os banqueiros e os gestores públicos forem condenados e presos. A denúncia da corrupção esteve no centro do debate: a situação de bancarrota em que nos encontramos deve-se mais à corrupção do que à crise externa. A Solução? Os corruptos para a cadeia (José Manuel Silva)! Mas o que fazer do povo alucinado, resignado e néscio que tem votado nos corruptos? Marinho Pinto respondeu e disse o que ele pretende fazer nas próximas eleições legislativas: não votar em ninguém, em nenhum partido do arco do poder ou da oposição pela oposição, para punir a classe política nacional. De facto, precisamos de reescrever a história de Portugal, ou melhor, de escrever uma filosofia da história de Portugal, capaz de nos dar o conhecimento racional do mundo real que queremos mudar. Porém, com a entrada em cena da troika e das suas medidas recessivas, altamente odiosas para os portugueses, o tempo urge: precisamos de agir antes mesmo de submetermos a história de Portugal a um inquérito filosófico e político. Pessoalmente, sou mais céptico quanto ao futuro de Portugal: a ruptura que devemos operar para libertar o futuro exige uma ditadura pedagógica suficientemente corajosa para sanear todas as instituições públicas e livrá-las dos nichos de corrupção que se instalaram nos seus espaços centrais. Só uma ditadura pedagógica pode resgatar o Estado e refundá-lo em novos moldes. A inovação só será uma realidade quando se operar uma renovação dos quadros das instituições nacionais: o cunhismo que as coloniza deve ser liquidado, bem como as figuras que o promovem. As vozes corruptas e irresponsáveis devem ser silenciadas, isto é, reduzidas à sua mediocridade. De certo modo, operei essa redução ao silenciar as vozes dos outros intervenientes - as de João Rodrigues que quer renegociar a dívida externa, como se Portugal fosse o credor (Marinho Pinto), e Pedro Vaz Teixeira, por exemplo, com as quais discordo em aspectos fundamentais. Quanto às vozes que se fizeram ouvir da plateia, algumas disseram coisas pertinentes, mas fiquei com a ideia de que ainda não tomaram consciência da real situação do país. Os portugueses - quais zombies alienados saídos de túmulos repletos de teias de aranha e de cobras venenosas - fogem da verdade como o diabo da cruz da salvação.

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Cornelius Castoriadis: O Fim da Filosofia?

«A vitória planetária do Ocidente é a vitória das metralhadoras, dos jipes e da televisão - não é a do habeas-corpus, da soberania popular, da responsabilidade do cidadão». (Cornelius Castoriadis)

«Todo o ser por si existe, e só pode existir, numa clausura. Assim acontece também com a sociedade e com o indivíduo. A democracia é o projecto de romper a clausura ao nível colectivo. A filosofia, que cria a subjectividade com capacidade de reflectir, é o projecto de romper a clausura ao nível do pensamento». «Assim, nascimento da filosofia e nascimento da democracia não coincidem, eles co-significam. Ambos são expressões e encarnações centrais do projecto de autonomia.» (Cornelius Castoriadis)

«Depois dos movimentos dos anos 60, o projecto de autonomia parece sofrer eclipse total. Podemos considerar esse facto como uma evolução conjuntural, de curto prazo. Mas essa interpretação parece pouco provável diante do peso crescente da privatização, da despolitização e do "individualismo" nas sociedades contemporâneas. Um grave sintoma concomitante é a atrofia completa da imaginação política. A pauperização intelectual dos "socialistas", bem como dos "conservadores", é aterrorizante. Os "socialistas" não têm nada a dizer, e a qualidade intelectual da produção dos porta-vozes do liberalismo económico, de quinze anos para cá, faria Smith, Constant ou Mill erguerem-se nos seus túmulos. Ronald Reagan foi uma obra-prima de simbolismo histórico». (Cornelius Castoriadis)

«O valor do "pós-modernismo" como teoria é reflectir servilmente e, portanto, fielmente as tendências dominantes. A sua miséria é fornecer delas apenas simples racionalização por trás de uma apologética pretensamente sofisticada, mas que não passa de expressão do conformismo e da banalidade. Digerindo-se agradavelmente com os discursos fúteis, tão em moda, sobre o "pluralismo" e o "respeito da diferença", o "pós-modernismo" desagua na glorificação do ecletismo, na recuperação da esterilidade, na generalização do princípio do "tudo o que funciona é válido", tão oportunamente proclamado por Feyerabend num outro domínio. Sem sombra de dúvida, a conformidade, a esterilidade e a banalidade, o "tudo bem" são os traços característicos deste período. O "pós-modernismo", honrado com um "complemento solene de justificação" pela ideologia, apresenta o mais recente caso de intelectuais que abandonam a sua função crítica e aderem com entusiasmo àquilo que é assim, simplesmente porque assim é. O "pós-modernismo", como tendência histórica efectiva e como teoria, é seguramente a negação do modernismo». (Cornelius Castoriadis)

Descobri relativamente tarde no meu percurso intelectual no deserto da cena nacional a renovação da filosofia da praxis empreendida por Cornelius Castoriadis, o que quer dizer que passei pela Universidade sem nada ter aprendido de novo com essas criaturas das trevas da ignorância que se auto-intitulam professores universitários. Portugal não existe, ou melhor, a sua existência é uma imensa mentira quase milenar: a universidade é mentira, os professores são mentira, o ensino é mentira, o discurso político é mentira, a praxis política é mentira, o emprego é mentira, a cultura é mentira, a arte é mentira, a comunicação social é mentira, a banca é mentira, as empresas são mentira, a investigação científica é mentira, o pensamento filosófico é mentira, os portugueses são mentirosos, enfim, tudo neste país é mentira. A maior desgraça que pode acontecer a um novo ser é nascer neste ermo mental que é Portugal: a injustiça originária de nascer português dita um destino trágico contra o qual é impossível lutar. Nascer português significa ser condenado de antemão ao exílio cruel durante toda a vida: Portugal é o país que não tem futuro, Portugal é a morte em vida. O eclipse total do projecto de autonomia, que se iniciou com os movimentos sociais dos anos 60 e que marca a decadência do Ocidente desde então, constitui um traço estrutural de Portugal: a decadência do Ocidente foi sempre-já uma terrível realidade em Portugal. A pauperização intelectual de hoje, sobretudo nos países mais desenvolvidos do Ocidente, foi sempre-já a pauperização intelectual de Portugal: as duas grandes expressões do projecto de autonomia - a democracia e a filosofia - são absolutamente estranhas ao povo português. Ora, um povo sem metafísica (Hegel) não tem futuro: algo de terrível no genoma português bloqueia a capacidade de criação espiritual. Portugal é a maldição do anti-futuro, Portugal deve perecer para que o Ocidente possa renascer. Em relação a Portugal que nos estigmatiza no genoma, no corpo, no cérebro e na alma e que nos envergonha perante o mundo desenvolvido, nós devemos elaborar uma anti-filosofia específica: desejar a morte de Portugal, porque no dia em que Portugal morrer nós seremos pela primeira vez livres para reinventar o futuro.

Os portugueses têm vergonha de Portugal, mas eles são responsáveis por essa vergonha mundial que é ser português. A morte de Portugal liberta o pensamento filosófico dessa terrível tarefa de pensar o não-ser, o não-futuro, a não-filosofia. Portugal devia ser expulso da NATO e da União Europeia para poder ser bombardeado pela NATO. A Filosofia é, por natureza, anti-portuguesa: a chamada filosofia portuguesa é um oxímoro. Demonstrar a aversão natural do povo português pela filosofia é decifrar e elucidar as linhas gerais da filosofia - ou melhor, da anti-filosofia - da História de Portugal. Porém, em vez de perder tempo com essa tarefa inglória que é pensar Portugal na sua falta de criatividade e na sua não-existência, o melhor será voltar à palavra escrita de Cornelius Castoriadis: «A filosofia e a democracia nasceram na mesma época e no mesmo lugar. A sua solidariedade resulta do facto de ambas exprimirem a rejeição da heteronomia: rejeição das pretensões à validade das regras e das representações, simplesmente porque ocorre que elas estão presentes; recusa de toda a autoridade exterior (mesmo, e particularmente, "divina") e de toda a fonte extra-social da verdade e da justiça; em resumo, questionamento das instituições existentes e afirmação da capacidade da colectividade e do pensamento em instituírem-se por eles mesmos explícita e reflexivamente». O facto de Portugal precisar da ajuda externa para sair da crise em que se encontra... (A equipa de manutenção do blog apagou o texto que escrevi durante a execução dessa tarefa e, neste momento, não tenho vontade de retomar o texto, até porque estou ocupado com outra tarefa mais interessante que não envolve Portugal. Não sei se retomarei este texto, logo se vê. A questão que procuro desesperadamente solucionar através de um confronto entre um filósofo e um neurocientista sofreu hoje um impasse trágico: a Caixa de Pandora roubo-me a esperança e, quando isso acontece, fico bloqueado. Vejo na elaboração de uma teoria ontológica da sociedade uma saída da clausura cognitiva, mas a morte volta a assombrar a saída vislumbrada. Novo impasse! A dialéctica como abertura é uma figura da mortalidade.)

(Em construção) J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 10 de maio de 2011

Prós e Contras: E depois do Acordo?

O debate Prós e Contras, moderado por Fátima Campos Ferreira, regressou novamente após este longo interregno. Porém, como não tive conhecimento prévio deste regresso, não pude assistir a todo o debate entre Pedro Silva Pereira (PS), Eduardo Catroga (PSD?) e António Pires de Lima (CDS). A imagem justifica a minha ausência: resolvi esplanar, em vez de ficar parado diante do televisor em casa ou em qualquer outro sítio para escutar aquilo que já não merece ser escutado: os discursos irracionais dos políticos portugueses. Eduardo Catroga voltou a fazer uma figura triste: o PSD parece andar desesperado e, em vez de se concentrar na resolução dos problemas nacionais, quer a todo o custo desalojar o PS, não para governar, mas para ocupar as suas posições. O discurso da verdade é-lhe completamente estranho: o PSD diz tudo o que for necessário dizer para conseguir ganhar as próximas eleições legislativas. O PSD não tem programa eleitoral, tem ambição: ocupar as posições do PS, saciar a fome dos seus apoiantes esquecidos pela actual configuração do poder e conservar o status quo que nega o futuro a Portugal. O PSD quer poleiro, nada mais do que isso: reconfigurar e repovoar o poder e as suas instituições de modo a garantir o sustento da sua rede social. A sua imensa fome de poder eclipsa completamente a sua racionalidade e a prova disso está no facto de afirmar num momento de crise nacional que não fará qualquer acordo com o PS. Um partido que não consegue analisar com objectividade as causas estruturais e externas da actual crise nacional e assumir responsabilidade pelos erros cometidos nestes últimos trinta anos não merece a confiança dos eleitores inteligentes: a substituição de pessoas não altera nada, sobretudo quando os novos candidatos se comportam como pessoas não-preparadas para assumir a tarefa de governar Portugal em tempo de crise. O acordo com a troika não esgota a imaginação política: os partidos políticos têm algum espaço de manobra para interpretar e executar o acordo sem exigir sacrifícios desnecessários. O programa do PSD é extremamente ambíguo: serve-se da ambiguidade - o aspecto demagógico e populista do seu discurso, desde logo inscrito na sua designação - para encobrir todo o seu projecto neoliberal de privatizações. Porém, o PSD tem uma visão corrompida da economia de mercado. Em Portugal, as privatizações são artifícios para conservar os privilégios de meia dúzia de famílias e de clientelas corruptas que identificam o interesse nacional com os seus próprios interesses privados: privatização total do Estado, isto é, feudalização do Estado, eis a fonte da corrupção portuguesa, responsável pelo mal-existente nacional. Quando se fala no atraso histórico de Portugal, convém defini-lo como a incapacidade histórica de avançar para o capitalismo, sem lhe impor a mordaça feudalizante ou mesmo «asiática» - o despotismo oriental - que atrofia as energias criativas da sociedade civil, adiando constantemente a grande ruptura, a única mudança qualitativa capaz de abrir as portas ao futuro de Portugal. As classes fraudulentamente privilegiadas portuguesas temem o capitalismo e com razão, porque não teriam lugar de destaque numa sociedade verdadeiramente capitalista. Na verdade, penso que ainda não temos um diagnóstico completo do atraso histórico de Portugal: aqueles que nos querem salvar são os nossos próprios coveiros. Os reformados sobre-remunerados - como Eduardo Catroga e outros - deviam deixar o espaço público livre para a emergência de novas forças criativas, mas aqueles que pretendem encarná-las não merecem confiança: os novos políticos - a geração rasca de políticos nacionais e europeus - já são o produto de um ensino degradado. Saber identificar as figuras criativas e conquistá-las para a grande política é libertar Portugal desses poderes obscuros que capturaram o Estado. Resgatar o Estado português, libertando-o da captura corrupta, eis uma das prioridades da grande política nacional.

Anexo. Infelizmente, os portugueses não são bons psicólogos: a agressividade verbal e comportamental do PSD não seduz uma mente instruída. Fazer um vídeo português para sensibilizar a compaixão dos finlandeses é reconhecer o seu próprio estado de menoridade: os portugueses precisam de cultivar a mente para não fazerem figuras tristes na arena mundial. O futuro de Portugal depende da inteligência dos portugueses e não da compaixão dos estrangeiros. Como se pode promover a imagem de Portugal no mundo quando internamente não se conhece Portugal? Onde está a "verdade" do PSD? Não a vejo - vejo apenas a redução da política ao jogo do insulto e do ataque pessoal. Onde estão os homens íntegros do PSD? Não os vejo - vejo apenas seres encharcados em más hormonas que chamam mentirosos aos outros. Onde está o programa do PSD? Não o vejo - vejo apenas a intenção escondida de privatizar para garantir a sobrevivência dos seus dirigentes e da sua rede social restrita de apoio. O futuro de Portugal joga-se nestas eleições legislativas: os portugueses possuem todos os dados necessários para tomar uma decisão racional. Porém, se não souberem fazer um uso racional do voto, serão mais uma vez co-responsáveis pelo estado de miséria em que nos encontramos há mais de trinta anos. (A alucinação colectiva que se apoderou dos governantes - incluindo as oposições - e dos governados leva-nos a questionar a eficácia da democracia em tempo de crise e de paz: o abuso generalizado da democracia produz as condições necessárias ao advento da ditadura.) As crises são momentos conjunturais favoráveis à ruptura radical com o mal-existente. Cabe à imaginação política protagonizada por um partido esclarecido saber aproveitar a crise nacional para arrancar Portugal do atraso estrutural e histórico. Reinventar Portugal: eis o programa político que o próximo governo deve articular com o cumprimento do acordo com a troika.

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Marxismo Fenomenológico do Jovem Marcuse

«Foi por isso que não tive em filosofia, como escrevi no prefácio de Pour Marx, nenhum verdadeiro mestre, nenhum mestre excepto Thao, mas esse em breve nos deixou para regressar ao Vietname e aí apodrecer entre tarefas de varredor de lixo e a doença, sem medicamentos, e Merleau-Ponty, mas como este fora já atraído pela antiga tradição espiritualista dominante, era-me impossível segui-lo. /Depois um pouco de Husserl que nos chegava por intermédio de Desanti (marxista husserliano) e de Tran Duc Thao cuja tese me fascinava». (Louis Althusser)

Infelizmente, não conheço bem o marxismo fenomenológico de Desanti, mas conheço o percurso de Tran Duc Thao da fenomenologia para o marxismo. Convém estabelecer um paralelo entre o percurso de Thao e o de Herbert Marcuse: ambos procuraram realizar uma síntese entre a fenomenologia husserliana e heideggeriana e o marxismo, tendo sido antecipados neste empreendimento pelo jovem Lukács: «Para o autor da Teoria do Romance, Kierkegaard desempenha sempre um papel importante. Muito antes deste autor estar em moda, tinha ele consagrado um ensaio às relações entre a vida e o pensamento em Kierkegaard» (Lukács). Antes de 1932, enquanto viveu em Freiburg sob a influência de Heidegger, o jovem Marcuse elaborou uma filosofia imbuída de categorias fenomenológicas, apesar do seu compromisso firme com o marxismo e com a prática política revolucionária. A tentativa de Marcuse de combinar o marxismo e a fenomenologia antecipou os empreendimentos filosóficos levados a cabo em França por Maurice Merleau-Ponty e Jean-Paul Sartre depois da II Guerra Mundial. As páginas que Althusser dedica na sua auto-biografia à penetração de Husserl entre os intelectuais parisienses merecem ser lidas, mas delas retenho apenas este momento em que ele recusa a tentativa de fundar transcendentalmente o sentido da praxis marxista: «O que importava pelo menos para mim é que quando lhe acontecia falar como um filósofo sobre Marx - Althusser refere-se a Desanti - era para o pensar directamente nas categorias de Husserl. E, como Husserl propusera a soberba categoria da «praxis» antepredicativa (camada originária de sentido ligada à manipulação das coisas), o nosso bom Touki (nome que lhe davam os íntimos) sentia-se felicíssimo por descobrir em Husserl o sentido então fundado da prática marxista. Mais uma figura, Touki, que (tal como Sartre) pretendia fornecer a Marx o sentido originário da sua própria «filosofia». Evidentemente, eu, que graças a Jacques Martin começava a ler directamente os textos de Marx e a compreendê-los, aliás indignado pelas pretensões fundadoras-humanistas dos seus textos de juventude, não estava de acordo. Nunca estive de acordo com as «interpretações» husserlianas de Marx por Desanti, nem com qualquer outra interpretação «humanista» de Marx. E adivinha-se porquê: porque me horrorizava qualquer filosofia que pretendesse fundar transcendentalmente a priori qualquer sentido e qualquer verdade numa camada originária por muito antepredicativa que fosse. Desanti nada tinha a ver com isso, excepto na medida em que não tinha o mesmo horror que eu pela origem e pelo transcendental» (Althusser). De Heidegger, Althusser só tinha lido nesta altura do seu desenvolvimento intelectual a Carta sobre o Humanismo dirigida a Jean Beaufret, obra que influenciou de modo decisivo a sua leitura da filosofia de Marx extraída de O Capital, em especial aquilo a que chamou o anti-humanismo teórico de Marx. A rejeição althusseriana do humanismo - o seu horror pelo homem, pela origem e pelo transcendental - leva-o a formular a tese complementar do anti-historicismo de Marx: ambas as teses condicionam-se mutuamente, implicando fatalmente aquilo a que Adorno chamou a atrofia da consciência histórica, de resto o sintoma mais evidente da debilidade do eu. A crítica que Althusser faz da síntese operada por Sartre entre existencialismo e marxismo no seu texto Resposta a John Lewis aplica-se de igual modo ao marxismo fenomenológico do jovem Marcuse. A leitura estrutural da história realizada por Althusser implica - conforme demonstrou Alfred Schmidt em Geschichte und Struktur - o abandono da herança hegeliana no seio do marxismo: o materialismo do encontro esboçado pelo Althusser tardio despede claramente a dialéctica, quebrando até mesmo o laço que o ligou durante muito tempo a Lenine. A esquerda letrada francesa, mais Foucault e Deleuze do que Derrida - o gigante, segundo Althusser, para fugir de Marx, salvou Heidegger e Nietzsche do esquecimento, acabando por abandonar a defesa dos explorados e dos oprimidos: a figura do intelectual específico que Foucault e Deleuze opõem ao intelectual universal de Sartre e o bio-poder de Foucault abençoado pelo neovitalismo de Deleuze são figuras satisfeitas com a realidade estabelecida. Quando afirma que «não haverá civilização enquanto o casamento entre homens não for admitido», Foucault mais não faz do que esvaziar a agenda política da esquerda, convertendo a luta política em mera luta reivindicativa de direitos plurais à Vida: o coveiro da esquerda é a própria esquerda que fugiu de Marx para se refugiar no pensamento conservador de Nietzsche e de Heidegger.

De 1928 a 1932, Herbert Marcuse torna-se assistente de Heidegger em Freiburg e procura abrir um «terceiro caminho», distinto do que foi seguido por Heidegger e do marxismo ortodoxo. Deste período destacam-se três ensaios fundamentais: Beiträger zu einer Phänomenologie des Historischen Materialismus (1928), Über konkrete Philosophie (1929), e Transzendentaler Marxismus (1930). No primeiro destes ensaios, Marcuse (1928) utiliza muitos termos do vocabulário de Heidegger, tais como Sorge, Geschichtlichkeit, Entschlossenheit e Dasein. Para Marcuse, a filosofia burguesa dissolve-se e decompõe-se na obra de Heidegger: Sein und Zeit (1927) abre o caminho para uma nova ciência do concreto, o modo como Marcuse interpreta o retorno husserliano às próprias coisas ou o retorno ao concreto, como lhe chamou Jean Wahl. Marcuse justifica esta sua tese da decomposição da filosofia burguesa alegando três razões fundamentais: Heidegger não só destacou a importância ontológica da história e do mundo histórico como Mitwelt ou mundo da interacção humana (1), como também mostrou que o homem está preocupado com a sua verdadeira posição no mundo, colocando em termos correctos a questão do ser ou da vida autêntica (2). E, ao defender que o homem pode alcançar a vida autêntica mediante a acção resoluta, Heidegger conduziu a filosofia à necessidade de uma praxis de transformação do mundo (3). Curiosamente, Marcuse que já tinha lido História e Consciência de Classe de Georg Lukács não capta que a obra de Heidegger retoma em chave conservadora os temas abordados por Lukács em termos críticos e revolucionários, como demonstrou Lucien Goldmann: a revolução conservadora de Heidegger não incomoda muito Marcuse, pelo menos durante este período inicial da sua carreira intelectual. O conteúdo concreto do existencialismo de Heidegger seduz Marcuse e o carácter radical da problemática do Dasein, da preocupação e da morte empresta-lhe uma dimensão revolucionária que possibilita uma síntese entre o existencialismo e o marxismo, síntese esta que será severamente denunciada mais tarde por Georg Lukács sem mencionar a empresa de Marcuse. Porém, a descoberta dos Manuscritos de 1844 de Marx e a sua publicação com a bênção de Heidegger imprimem um novo rumo ao pensamento filosófico de Marcuse que lhes dedica um estudo fabuloso: Neue Quellen zur Grundlegung des Historischen Materialismus (1932). A ontologia humanista e revolucionária que inspira os Manuscritos de Marx, muito próxima de um hegelianismo de esquerda, parece-lhe agora mais concreta e real do que o existencialismo do seu mestre. Heidegger que entretanto deslizava para o nacional-socialismo recusa a sua tese de livre-docência: A Ontologia de Hegel e a Teoria da Historicidade (1932), onde o objecto de interesse de Marcuse era menos a compreensão do Ser do que a do ente, menos a ontologia fundamental do que a reflexão sobre a história. Quando abandona a Alemanha pouco antes da chegada de Hitler ao poder (1933), Marcuse reúne-se ao grupo de Max Horkheimer, graças à recomendação de Husserl, e, a partir desse momento, já como membro da Escola de Frankfurt, rompe com Heidegger: o seu primeiro livro que consuma essa ruptura é Razão e Revolução (1941), onde Marcuse propõe uma interpretação política, anti-autoritária e marxista do pensamento dialéctico de Hegel.

Mas o que interessa aqui destacar é a sua elaboração de um marxismo transcendental de cariz marcadamente fenomenológico-existencial, mais outro marxismo imaginário, para usar a expressão de Raymond Aron. Apesar de ser atraído pelo conteúdo concreto do existencialismo heideggeriano, Marcuse apercebe-se das suas deficiências teóricas. A grande fragilidade da filosofia existencial de Heidegger reside basicamente no seu conceito abstracto e formal de historicidade, que não lhe permite explicar as condições históricas reais que constituem a acção humana libertadora: a possibilidade de realização da vida autêntica no mundo dos homens concretos aponta para uma proeza radical que, no momento histórico presente, só é possível como proeza do proletariado, o único ser-no-mundo capaz de se envolver numa acção radical e de se converter em sujeito histórico real. Nos Manuscritos de 1844, Marx já tinha reconhecido aquilo que Heidegger irá ignorar mais tarde: a divisão da sociedade em classes sociais antagónicas. Os actuais capatazes da classe capitalista - os gestores públicos e privados que auto-atribuem a si próprios remunerações chorudas e prémios imorais - negam a existência das classes sociais e da luta de classes. Embora tenha sido abolida semanticamente pelo discurso tecnocrata dos colarinhos-brancos, a realidade das classes sociais e das desigualdades sociais agravou-se efectivamente desde que o mundo começou a ser governado por esta nova classe dirigente. O actual mundo histórico só pode ser transformado por uma revolução social radical, aquilo a que Marcuse chamou mais tarde a Grande Recusa: a nossa possibilidade de realizar a existência autêntica e de a universalizar requer o nosso empenhamento em actos radicais. O povo humilhado e ofendido, explorado e oprimido, deve revoltar-se contra a ordem social vigente e derrubá-la através da violência revolucionária (Merleau-Ponty), a única capaz de consumar e de realizar real e plenamente o humanismo integral. Deste modo, Marcuse não só complementa Heidegger com Marx, como também complementa o marxismo com a fenomenologia existencial: o seu marxismo fenomenológico - a fenomenologia dialéctica - rejeita a noção mecanicista e materialista da superestrutura ideológica e jurídico-política como mero reflexo da infra-estrutura económica. A fenomenologia dialéctica que articula entre si ontologia, história e dialéctica não pode resolver a questão da prioridade do ser sobre a consciência que define o materialismo ou da consciência sobre o ser que define o idealismo: a própria questão do primado da matéria sobre a consciência ou da consciência sobre a matéria carece de sentido a partir do momento em que é colocada pela consciência revolucionária que visa a transformação do mundo. Neste ponto, Marcuse permanece fiel não só à fenomenologia, que pretende descobrir um mundo antepredicativo aquém da cisão sujeito-objecto, como também à ontologia humanista do jovem Marx. Além disso, a fenomenologia dialéctica não investiga a natureza, condenando assim a tentativa de Engels de elaborar uma dialéctica da natureza: o ser natural é completamente distinto do ser histórico. Embora possa ter uma história evolutiva, a natureza não é em si mesma história. Só o Dasein - a realidade humana, segundo a tradução de Sartre - é história. A naturalização das ciências da cultura preconizada pelo positivismo mais não é do que uma técnica ideológica de adaptação: a ordem social vigente e o seu estado de alienação generalizada, que podem e devem ser transformados pela acção consciente e intencional dos homens reais e concretos, tendo em vista a construção de um mundo melhor (Bloch) e a realização da existência autêntica, é apresentada pela filosofia burguesa não como uma realidade histórica transitória, mas como uma ordem natural imutável. Marcuse, Lukács e Bloch - bem como Kojève, o homem que Althusser acusava de nada ter compreendido de Hegel - distanciam-se claramente do marxismo científico de Engels e do marxismo ortodoxo da II Internacional que sacrificam o elemento subjectivo - a liberdade do próprio homem enquanto sujeito real da história - no altar dos determinismos sócio-económicos: o ser da natureza não é dialéctico e, portanto, só pode ser estudado pela física matemática. Na sua tese de livre-docência, Marcuse adere à fusão operada por Dilthey entre história e ontologia, elogiando-o por ter libertado as ciências do espírito (Geisteswissenschaften) da metodologia das ciências naturais (Naturwissenschaften) e por ter restaurado o seu verdadeiro fundamento filosófico: o conceito de Dilthey de vida (Leben) como suporte da realidade histórica acentua o significado, em vez da causalidade. Ser e sentido estão intimamente ligados, tanto no pensamento do jovem Marcuse, como no pensamento de Tran Duc Thao: os homens reais fazem a sua própria história em condições históricas concretas, injectando-lhe os valores que a unificam e doando-lhe um sentido. A dialéctica é, antes de tudo, uma relação sujeito-objecto: afirmar que o funcionamento real é uma primeira relação dialéctica entre o homem e a natureza é excluir desde logo a possibilidade de uma dialéctica da natureza independentemente da existência histórica do homem, porque, segundo a feliz expressão de Jean-Yves Calvez, «sem o homem, a natureza não tem sentido. Nem sentido, nem movimento».

J Francisco Saraiva de Sousa