sexta-feira, 29 de junho de 2012

Projecto Filosofia Ecológica

Porto: Jardins do Palácio de Cristal
«O mesmo conhecimento que levou o dilema ao seu clímax, contém a solução.» (Edward O. Wilson)

Em Portugal, as pessoas que me conhecem dizem que «o Saraiva tem um temperamento difícil», o que quer dizer que eu sou muito exigente, sobretudo em matérias científicas e filosóficas. É provável que este dito seja uma espécie de censura, mas eu tomo-o como um elogio: ser exigente neste país parado no tempo é ser contra o sistema que bloqueia o seu futuro. Não há grandes dissonâncias entre o que penso e o que faço: critico o carácter nacional tanto na teoria como na prática: não suporto o jogo de fingir ser aquilo que não se é. A minha actividade teórica e prática confronta as pessoas com a sua própria mediocridade. E elas detestam ser testadas porque sabem que são fraudes diplomadas: os diplomas pouco valem quando os seus portadores não estão à sua altura. Um cientista ou um filósofo não precisam de diplomas fraudulentos para vencer na luta pelo reconhecimento: o que conta é o seu desempenho na resolução de problemas. Tinha prometido escrever um texto sobre a imagem do homem na ecologia. Porém, quando me preparava mentalmente para cumprir essa promessa, descobri que tinha ao meu dispor diversas vias de abordagem do tema. A ecologia é uma ciência extremamente complexa e os seus dispositivos teóricos não são conhecidos pelas pessoas banais que a identificam com o ecologismo e as campanhas verdes. Convém distinguir entre ecologia e ecologismo. A palavra "ecologia" foi, pela primeira vez, utilizada por E. Haeckel em 1866 para designar «a ciência que estuda as relações entre o ser vivo e o meio em que ele se encontra». De certo modo, esta definição continua a ter valor, embora os ecólogos possam diferir quanto à delimitação do campo da ecologia: Paul R. Ehrlich apresenta uma definição de ecologia muito mais ampla fazendo dela a combinação das disciplinas da chamada biologia populacional. A ecologia aparece assim como uma ciência de síntese que pode ser definida nestes termos: o estudo das condições de existência dos seres vivos e das interacções, de qualquer natureza, existentes entre esses seres vivos e o seu meio. Ou, numa única expressão: o estudo da economia da natureza (Ricklefs, 1993). O facto da maior parte dos ecólogos serem ecologistas contribui para a confusão entre a ciência da ecologia e o ecologismo. As crises do mundo contemporâneo têm causas ecológicas e, por isso, ajudam a fomentar uma consciência ecológica que está, de algum modo, na base do aparecimento da biologia da conservação. Os movimentos ecologistas que surgem por todo o mundo representam a "ecologia-forma de pensamento" e não a "ecologia = ciência do meio": o seu objectivo primordial é agir de modo a assegurar a conservação do meio e a sobrevivência da civilização. O ecologismo é, portanto, uma nova política. Nestas matérias ecológicas aconselho o estudo das obras dos ecólogos anglo-saxónicos, tais como H. G. Andrewartha & L. C. Birch (1954, 1984), J. H. Brown & A. C. Gibson (1983), C. Elton (1927), J. L. Harper (1977), G. E. Hutchinson (1978), C. J. Krebs (1978), J. R. Krebs & N. D. Davies (1978), R. H. MacArthur (1972), E. P. Odum (1971), R. E. Rickfels (1979), J. Roughgarden (1979), M. E. Soulé & B. A. Wilcox (1980), R. H. Whittaker (1975), e Paul R. Ehrlich (1986). Os autores franceses (Roger Dajoz, por exemplo) tendem a acompanhar Schröter (1896, 1902) quando dividem a ecologia em Auto-Ecologia e Sinecologia: a primeira estuda a influência dos factores externos sobre o animal ou o vegetal, enquanto a segunda estuda as comunidades naturais, de que fazem parte animais e vegetais. A Sinecologia subdivide-se, por sua vez, em dois ramos: a Demecologia que estuda o crescimento, as variações de densidade e o declínio das populações animais ou vegetais; e a Biocenótica que estuda as biocenoses, isto é, as comunidades de seres vivos que habitam uma porção da paisagem, estando adaptados às condições médias deste meio natural. Esta divisão da ecologia é artificial: a utilização dos modelos dos níveis hierárquicos de organização ecológica dispensa esta divisão. A pátria da ciência é a língua inglesa: é uma estupidez publicar traduções de obras francesas em detrimento das obras "inglesas", porque todo o conhecimento verdadeiramente produtivo está nas segundas e não nas primeiras. Ecologia e evolução formam uma aliança que possibilita o estudo aprofundado da ecologia fisiológica, da ecologia populacional, da ecologia do comportamento, da ecologia das interacções (predação, mutualismo e competição), da biogeografia, da ecologia das comunidades e da ecologia dos ecossistemas

No mundo anglo-saxónico, as universidades oferecem cursos de Filosofia Ambiental (Environmental Philosophy). Dale Jamieson (2001, 2003) coordenou o seu manual de texto mais conhecido: A Campanion to Environmental Philosophy. Como é evidente, não concordo com muitos dos contributos particulares desta obra colectiva, mas o que me levou a escrever este texto foi a necessidade de impugnar a designação dada à nova disciplina filosófica. Prefiro claramente a expressão Filosofia Ecológica ou Eco-filosofia para designar este novo campo da investigação filosófica. A ecologia substituiu o termo "natureza" por um novo conceito: a biosfera. A biosfera é a parte do globo terrestre em que vivem os animais e os vegetais. Compreende a atmosfera até uma altitude de cerca de 15 000 m, o solo (litosfera) até algumas dezenas de metros de profundidade, as águas doces e as camadas superficiais (menos de 1000 m) das águas marinhas (hidrosfera). A substituição da natureza pela biosfera implica, pelo menos no plano filosófico, uma distinção entre filosofia da natureza e filosofia ecológica. Na Enciclopédia das Ciências Filosóficas de Hegel, a filosofia da natureza compreende a mecânica, a física e a física orgânica (geologia, botânica e zoologia). Poderíamos recorrer também à filosofia da natureza dos românticos para mostrar que o âmbito objectual da filosofia da natureza é mais vasto do que o da filosofia ecológica. A filosofia da natureza integra a filosofia ambiental ou ecológica, cujo objecto de estudo é apenas a biosfera. Infelizmente, a filosofia contemporânea tende a estar mais próxima das "letras" do que das "ciências", correndo o risco de se converter num género literário. Chegou a hora de expulsar esses literatos do campo da filosofia e de reactivar a Grande Tradição: o vínculo primordial entre filosofia e ciência. Não consigo conceber um filósofo destituído de conhecimentos científicos. Em Portugal, aqueles que dizem ser "filósofos profissionais" (sic) são idiotas culturais que nem sequer conhecem a história da filosofia nas suas ligações orgânicas com a ciência e a política. Quando pretendem passar da ecologia-ciência para a ecologia-política, os ecólogos precisam da mediação filosófica que não se esgota na mediação ética: Sem filosofia não há verdadeiramente política ecológica, porque é a filosofia que representa a política na esfera da ciência. Ora, uma tal mediação filosófica é extremamente elaborada: ela implica desde logo uma ruptura entre o saber ecológico e a ciência da ecologia. O saber ecológico de um pescador ou de um índio da Amazónia, por exemplo, constitui o objecto de estudo da etno-ecologia. A ecologia humana ocupa-se do saber ecológico das comunidades humanas, mas este conhecimento em primeira-mão não é suficiente para elaborar uma teoria da ecologia. Este aspecto não tem sido compreendido pelos ecologistas que defendem o regresso às origens, isto é, às comunidades primitivas. O primitivismo de certas políticas ecológicas deve ser desmistificado pela filosofia: a luta contra o progresso não implica necessariamente um retrocesso civilizacional. É perfeitamente ridículo opor outras tradições culturais - indígenas, chinesa, indiana, budista, islâmica, etc. - à civilização ocidental, como se as primeiras tivessem o monopólio das "boas" práticas ecológicas. A civilização ocidental é a única civilização capaz de salvar a natureza. Assim, por exemplo, os eco-feminismos - estas aberrações do espírito humano! - esquecem que nunca poderiam ter germinado fora da tradição ocidental: a imagem da mulher ocidental no mundo extra-ocidental não é nada favorável às feministas. O feminismo é uma ideologia nefasta que deve ser desconstruída, até porque está a degradar os pilares fundamentais da civilização ocidental. A ética ambiental proposta pelo eco-feminismo é uma espécie de ética de cabaret. Têm sido propostas diversas éticas ambientais - meta-ética, ética normativa, sencientismo, ética da terra, ecologia profunda e eco-feminismo, das quais a mais infrutífera é, sem dúvida, a perspectiva eco-feminista, que, além de prostituir a filosofia, mistifica o ambiente, desviando a atenção dos verdadeiros problemas ecológicos. Não sou completamente avesso à tentativa de elaborar uma ética ambiental, embora saiba que ela não resolve os problemas ecológicos. O Projecto Filosofia ecológica propõe-se abrir caminho para o nascimento de uma visão teórica integrada da ecologia, capaz de orientar as práticas políticas adequadas, em defesa do controle da população, da biodiversidade e da conservação biológica.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 26 de junho de 2012

O Homem e as Orquídeas

Orquídea Baunilha
«Tal como o homem, a orquídea, controlando os nascimentos, espalhou-se pela Terra: mesmo nos climas mais frios, pois existe uma orquídea-das-neves. Como o homem, a orquídea é social: vive em relação com os outros. Como o homem, a orquídea sabe pôr os outros a trabalhar: a árvore que a suporta, o insecto que a fecunda, o cogumelo que a alimenta. Agora até faz trabalhar o homem, o seu antigo destruidor, que já não lhe faz guerra, mas lhe dedica amor. Não só a fecunda, mas também inventou para ela um meio açucarado em que pode germinar! E até um sistema para alimentar o bebé orquídea sem o tal cogumelo». (Jean-Marie Pelt & Jean-Pierre Cuny)

Não sei se já repararam que em Portugal não há traduções das grandes obras de botânica. Quem queira estudar botânica tem de recorrer aos originais publicados em língua inglesa. É muito difícil dedicar a vida à ciência e à filosofia num país habitado por "burros" que não sabem fazer uso cognitivo do cérebro, a não ser para danificar a vida dos outros. O povo português é, por natureza, avesso ao conhecimento. Embora sejam destituídas de cérebro, as plantas são mais "inteligentes" do que os portugueses: elas inventaram mais coisas do que os portugueses durante toda a sua história. A botânica não é uma ciência atractiva devido à sistemática: a classificação das plantas afasta sistematicamente os alunos do estudo da botânica. Mas a classificação é fundamental para compreender o mundo das plantas, porque classificar as plantas é contar a sua história evolutiva. A aventura das plantas passou do oceano cinzento ao oceano verde, das algas aos musgos, dos musgos aos fetos, para depois conceber a folha, o caule, a raiz e a semente de madeira e, finalmente, inventar a flor. A passagem do oceano para a terra firme não foi nada fácil: as algas verdes (filo Chlorophyta) representam provavelmente os ancestrais do filo Tracheophyta, que inclui todas as plantas que dominam nos nossos dias toda a terra firme. Estas plantas desenvolveram sistemas radiculares para retirar a água e os nutrientes do solo, folhas para a fotossíntese ao ar livre e um caule ou sistema vascular - xilema e floema - para o transporte da água e dos nutrientes da raiz para as folhas. Os musgos e as hepáticas do filo Bryophyta são as únicas plantas que se adaptaram à vida terrestre sem um sistema vascular, sobrevivendo pelo facto de serem pequenas e de viverem num meio húmido. São plantas terrestres avasculares, entre as quais temos as hepáticas, os antóceros e os musgos. As plantas vasculares incluem dois grupos: as plantas vasculares com e sem semente. O segundo grupo inclui as psilófitas, as microfilófitas, as artrófitas e as pterófitas, enquanto o grupo das espermatófitas inclui as angiospermas ou plantas frutíferas e as gimnospermas. Na história da evolução biológica, a orquídea é o equivalente ao homem no reino vegetal. O homem e a orquídea são, pois, as duas invenções mais recentes da natureza. O reino animal e o reino vegetal podem ser imaginados como duas montanhas fundadas no mesmo continente da vida, no topo das quais se encontram o homem e a orquídea, respectivamente, que surgiram na Terra há apenas uns milhões de anos. O facto curioso é que, tendo chegado ao cimo da evolução, o homem e as plantas partilham a mesma obsessão pelo abrigo. A orquídea não é a planta do futuro, porque, pelo menos aparentemente, já não evolui. A planta do futuro parece ser um estranho bolbo que, na selva profunda, enterra a sua flor numa carapaça hermética, como se desconfiasse do futuro. Hoje quase todos os homens desconfiam do futuro: a necessidade de construção de abrigos já não é apenas ditada pela ameaça nuclear, mas sobretudo pelo imperativo da sobrevivência. O sistema capitalista é de tal modo destrutivo no seu funcionamento que, ao destruir a natureza, coloca em perigo a continuidade da aventura biológica na Terra, incluindo a própria aventura humana. As plantas surgiram há cerca de 3 biliões de anos e passam bem sem o homem. Mas o homem que apareceu só há 5 milhões de anos não pode sobreviver sem as plantas que lhe dão o oxigénio que respira, os alimentos, os têxteis, os materiais, os perfumes, os medicamentos, as drogas e as flores. O homem é a única criatura da Terra que possui a chave do futuro, tanto do seu próprio futuro como também do futuro de toda a biosfera. A reconciliação entre o homem e a natureza implica uma mudança radical de vida, mudança esta que só pode ser realizada mediante a destruição do sistema capitalista. O maior inimigo da vida é o capitalismo: a crise ecológica é, efectivamente, a crise da economia capitalista.

Os portugueses descobriram e colonizaram o Brasil, mas - tanto quanto sei - nunca foram "caçadores de orquídeas": a insensibilidade botânica e estética dos portugueses já tem uma longa história. A sua inteligência reduzida não lhes permitiu ver que a orquídea valia fortunas enquanto era selvagem. Nas florestas tropicais, as orquídeas vão buscar sol ao cimo das mais altas ramagens, porque no sub-solo não entra nenhum raio solar. Para subir pelos troncos das árvores, as orquídeas desenvolveram lianas compridas, cujos caules se enrolam às ramagens, de modo a levá-las para mais perto do sol. Algumas instalam-se directamente nas forquilhas das árvores e aí criam raízes. No entanto, as raízes das orquídeas não chegam ao chão, para tirar daí a água e os nutrientes que precisam para sobreviver. As raízes das orquídeas estão penduradas à planta, como se fossem apêndices inúteis: a água da chuva escorre por elas e vai formar gotas na ponta, penetrando na raiz através de um tecido especial chamado véu, graças ao qual a planta tira directamente a água da chuva. A função do véu varia em função do período do ano. No tempo das chuvas, o véu funciona como uma espécie de esponja, formando um sobretudo hidrófilo à volta da raiz que lhe permite absorver a água. Mas, com a chegada do tempo mais seco, o véu desidrata-se e as células achatam-se, formando uma parede protectora que retém a água. Existem 20 000 espécies de orquídeas diferentes e, ao contrário do que se pensa, elas estão espalhadas por todos os lados, incluindo a Europa, e em todos os climas. As orquídeas das regiões temperadas - a orquídea casco-de-vénus e a orquídea-celha, por exemplo - não são tão exuberantes e belas como as orquídeas-lianas das selvas tropicais. No entanto, apesar desta diversidade, elas partilham o mesmo tipo de flor: uma flor aperfeiçoada para viver na companhia dos insectos. Como se sabe, os insectos alimentam-se do néctar fabricado pelas flores e, em troca, transportam o seu pólen. A superioridade das orquídeas em relação às outras plantas de flor reside no facto de terem inventado diversos meios para atrair o mensageiro. A floração das plantas é desencadeada por determinadas mudanças químicas sob a influência da luz, podendo envolver um mecanismo hormonal sensível ao fotoperíodo. A flor é o órgão reprodutor tanto das angiospermas como das gimnospermas. As flores das orquídeas pintam-se de modo a atrair os insectos. Quando chega perto da flor, o insecto tem de aterrar. Para o ajudar a aterrar no local certo, a orquídea desenvolveu o labelo, isto é, uma pétala balizada por tufos de pêlos, por estrias e por pontos coloridos, ao mesmo tempo que o orienta até ao néctar mediante balizas odoríferas. A baunilha é uma orquídea originária do México. Quando se tentou cultivar esta orquídea no oceano Índico, descobriu-se que ela só podia ser fecundada por um insecto mexicano, o melipone. Embora tenha sido importado para as novas terras, o insecto não se adaptou: o homem teve de inventar um método artificial de fecundação da baunilha para que a planta desse vagens. O caso da orquídea baunilha mostra que há plantas que estão em perigo pelo facto de serem demasiado especializadas: o desaparecimento do insecto melipone encurrala a orquídea baunilha, porque, sem ele, não pode reproduzir-se. A cooperação entre insecto e planta é uma das maravilhas da natureza. As orquídeas inventaram o labelo para atrair o insecto e guiá-lo na aterragem. Porém, há orquídeas que se transformaram em insecto: as sua pétalas adquirem visivelmente o aspecto do insecto. Cada uma delas atrai o seu próprio insecto, adoptando o aspecto da sua fêmea - cor, tacto, pêlos do labelo - e produzindo o seu perfume. O insecto em questão não resiste aos encantos da flor-fêmea: aterra nela e copula com ela, deixando lá os seus espermatozóides. As orquídeas não espalham o seu pólen pelo vento: ele é apresentado numa massa única e compacta que se agarra à cabeça do insecto através de uma espécie de cimento fabricado por uma glândula. Quando o insecto viaja para outra orquídea, um dispositivo inclina a massa do pólen, para que no fim da viagem caia exactamente no estigma viscoso de outra orquídea. Quando a fecundação acontece, a flor murcha e cai. A orquídea fecundada já não precisa de atrair os insectos: o pequeno ovo resultante dessa fecundação está contido numa semente minúscula. As orquídeas são plantas evolutivamente paradoxais: produzem vários milhões de sementes, as mais pequenas do mundo vegetal, cada uma das quais tem o seu próprio embrião mal formado e sem reservas alimentícias. Ora, no momento da germinação, o embrião-orquídea encontra-se numa situação dramática: não pode plantar uma raiz no solo e não tem nada para comer dentro da semente. Se não fosse a natureza a dar-lhe uma ama-seca, o embrião-orquídea estava condenado. No chão, próximo das orquídeas, há um cogumelo que serve de raiz ao embrião-orquídea e que o alimenta através de um filamento que lhe dá o que o cogumelo tira do solo. No entanto, quando a pequena orquídea cresce e planta a sua própria raiz, deixa de precisar da ajuda do cogumelo e tenta desembaraçar-se dele. Mas o cogumelo recusa ser expulso e incrusta-se na planta, dando origem a uma competição entre ambos. Para evitar ser invadida pelo cogumelo, a orquídea desenvolve grossas raízes tuberculizadas - duas raízes redondas no chão - que dão o nome à família das orquídeas: "Orchis", em grego, significa "testículo". A aventura das orquídeas ainda não está concluída: há orquídeas que regridem, perdendo a sua clorofila. Estas orquídeas deixam de ser verdes e não produzem folhas. Incapazes de se alimentar a partir da água do chão e do anidrido carbónico do ar, como fazem as plantas normais, alimentam-se de cadáveres de animais e de plantas, tal como os cogumelos ou mesmo o homem. Esta orquídea necrófila pode ser vista nos pinhais, na pequena Neotia das florestas temperadas. Actualmente, o homem e as orquídeas reconciliaram-se, porque o homem passou a dedicar-lhes cuidados especiais, fecundando-as e dando-lhes um meio açucarado onde elas podem germinar, em vez de lhe fazer guerra. O futuro das orquídeas estará garantido enquanto o homem souber cuidar da natureza, usando a sua capacidade de previsão consciente

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

De regresso à Botânica

Ceropegia woodii, Corações unidos

Flor de Cera 

Tenho andado a fazer uma campanha de sensibilização botânica: os portugueses são de tal modo seres brutos que carecem de sensibilidade estética. A minha paixão pelo mundo das plantas remonta à minha infância quando o meu pai me brindava com plantas exóticas. Sou por vocação mais zoólogo do que botânico, mas nessa altura as pessoas pensavam que iria seguir engenharia agrónoma, até porque já fazia experiências botânicas ousadas para a minha terna idade. As trepadeiras sempre me fascinaram: a minha estufa era toda ela coberta por trepadeiras. A frescura e a humidade resultantes permitiam-me cultivar plantas exóticas, quase todas elas provenientes de África. As violetas africanas - dobradas e singelas - predominavam, embora tivesse uma boa colecção de begónias, de gloxínias, de orquídeas, de jarros e de tantas outras plantas exóticas. Os canteiros que tinha no interior da estufa foram palco de algumas experiências engenhosas: a competição entre plantas fascinava-me e eu sabia que, para ter sucesso na reprodução das violetas, devia plantar as folhas - praticamente sem caule - à sombra de outras plantas. (Raramente as colocava num frasco ou copo com água, como faziam certas pessoas!) A exploração desses espaços interiores e escondidos pela luxuriante verdura das grandes plantas justifica o sucesso da reprodução das violetas africanas. Alarguei este princípio a outras plantas e verifiquei que os corações unidos conseguem eliminar todas as outras concorrentes tomando posse total do canteiro. Até mesmo as begónias eles conseguiram eliminar. Depois dos quatorze ou quinze anos de idade fui forçado a concentrar-me na minha real vocação zoo-antropológica. No entanto, a minha tese de mestrado ainda dedica algumas palavras à nova botânica. Hoje não tenho praticamente plantas, com excepção de violetas africanas ou de orquídeas. As plantas exigem muitos cuidados e, por vezes, é difícil tratá-las e libertá-las das suas doenças: os tratamentos recomendados também as podem matar. A vigilância constante é o melhor meio de conservar a saúde das plantas de interior. Quem tenha violetas africanas sabe que pode libertá-las dos parasitas usando um simples cotonete.

A prática da biologia esteve sempre ligada à biofilia. A emergência da biologia molecular quebrou esta união orgânica, fazendo desaparecer o naturalismo. Hoje em dia há milhares ou mesmos milhões de "amigos de tudo e de nada", e, nas redes sociais, proliferam inúmeras causas. A maior parte dos utentes dessas redes limita-se a seguir as "manadas virtuais", colocando automaticamente os seus "likes" em diversas causas incompatíveis entre si. Se há alguma coisa que as liga entre si, desconfio que, além da estupidez, é o ódio pelo homem. São "amigos dos animais ou das plantas" porque odeiam o homem: o seu niilismo antropológico é sintoma de antropofagia ou mesmo de desejo de aniquilação humana. Na verdade, os utentes da Internet não sabem nada de nada. Às vezes sou levado a pensar que estou a dialogar com programas de computador estúpidos. Mas não são os programas e as plataformas que são estúpidos; os utentes é que são absolutamente estúpidos. Alguns dos "amigos dos animais" auto-denominam-se de "zoófilos", sem suspeitar que a zoofilia é classificada como uma parafilia. Acho que nunca houve na longa história do homem uma era tão povoada de burros diplomados como a nossa. Em Portugal, eu só vejo burros, uns diplomados, outros não diplomados, mas todos são burros que cultivam a ignorância activa. A burrice está tão alastrada que, por vezes, quando vou ao café, sou forçado a escutar lições de biologia, de medicina ou de história dadas por um burreco que nem o décimo segundo ano concluiu. Não adianta usar um argumento de autoridade, porque os burros alegam que têm "direito à opinião". Estou cansado desta ralé portuguesa. E estou cada vez mais elitista: o meu desejo é aniquilar a ralé, mesmo que para isso tenha de defender uma ditadura pedagógica ou mesmo o eugenismo. Já não suporto ouvir as vozes destes burros portugueses. O eugenismo foi pensado desde Platão até hoje para proteger os mais aptos das investidas da turba medíocre. Cultivar o mérito já é uma forma de eugenia. Infelizmente, a esquerda contribuiu para o triunfo da mediocridade, destruindo desde logo o ensino e a educação. O fracasso total do 25 de Abril fornece uma nova chave de leitura da ditadura de Salazar. Por vezes, suspeito que Salazar conhecia demasiado bem a natureza arcaica dos portugueses, dando-lhes o tratamento adequado: o regime do silêncio. A gritaria que reina desde o 25 de Abril leva-nos a apreciar esse bem precioso que é o silêncio, sem o qual não conseguimos pensar. Os portugueses são zombis que gritam de manhã à noite. Não teríamos chegado a este estado caótico de gritaria se o sistema de educação tivesse desempenhado o seu papel de triagem: seleccionar os melhores. As escolas não são centros de igualização: a função da escola é realizar uma triagem, separando os dotados dos não-dotados, os quais devem ser encaminhados para outras funções. A realidade social vigente implica uma mudança de função da teoria crítica. Se no passado defendeu a igualdade, ela é hoje forçada a defender a mudança radical que permita aos melhores dominar a ralé. As massas não fazem a história; as massas são moldadas pela história realizada pelos homens mais criativos. Para garantir a evolução do conhecimento científico, é preciso vedar o seu acesso. As vozes dos "amigos de tudo e de nada" devem ser silenciadas. Precisamos de silêncio para pensar o futuro da humanidade e do planeta. Pensar é um exercício solitário; não é uma actividade colectiva. O conhecimento exige esforço e disciplina; é uma actividade penosa. O chicote deve ser usado para disciplinar as massas nas actividades produtivas.

Lá por defender o chicote para disciplinar as massas não deixei de ser um homem de esquerda; pelo contrário, estou a atribuir à esquerda um novo projecto político. O meu conhecimento biomédico - e filosófico - foi precedido por um longo período de educação, cuja escola foi a própria natureza. Esta educação informal - realizada no terreno sob orientação dos pais - é mais rica do que a educação formal dada pela escola. Quando escutava as lições do professor de biologia, tinha consciência de que sabia mais do que ele, que nunca tinha explorado uma floresta, uma savana ou a região africana dos grandes lagos. De certo modo, auto-eduquei-me e os meus pais fomentaram sempre o meu espírito de independência, sem permitir que ele fosse eclipsado por acção de professores medíocres. O ensino administrado pelas escolas portuguesas foi sempre uma merda: o que me salvou da mediocridade portuguesa foi o contacto com estrangeiros, sobretudo com ingleses e alemães. Mesmo quando realizei uma experiência "aristotélica" para explicar a origem da vida, eles apoiaram-me, embora soubessem que estava no caminho errado, porque a minha experiência demonstrava a impossibilidade de surgir vida lá onde ela já existe. Compreendi rapidamente o meu erro e fiz uma dissertação quase-molecular. Não tinha mais de oito anos de idade e já falava a linguagem da biologia molecular. Apesar de ser muito analítico e reducionista, nunca senti essa oscilação entre uma vocação molecular e uma vocação naturalista: a biologia foi sempre para mim a arte de conjugar essas duas vocações. Porém, confrontado com a miséria dos programas de biologia em vigor, sou forçado a privilegiar a base naturalista da biologia. Hoje os alunos não sabem nada: se lhes dermos uma folha para classificar, eles não o sabem fazer, porque não aprenderam classificação do reino vegetal. Aliás, eles não aprendem realmente as bases morfológicas, fisiológicas e evolutivas das ciências da vida. Em Portugal, a ralé que ascendeu com o 25 de Abril justifica o carácter minimalista dos programas, alegando temer a traumatização das crianças. O conhecimento é, por natureza, um trauma. E, sendo assim, é preciso poupar as crianças desse trauma, usando a escola mais como um meio para conversar e socializar do que como um centro difusor de conhecimento. O resultado desta política da educação sem trauma é a produção em massa de pessoas diplomadas sem conhecimentos. Todos são iguais à luz da ausência de conhecimentos: a igualdade implantada é a igualdade da burrice. A passagem do analfabetismo do Estado Novo ao analfabetismo funcional do Estado Democrático é tida como um progresso da sociedade portuguesa. Mas lá onde a ralé triunfante vê progresso, eu vejo regressão: os burros mais insuportáveis são precisamente os diplomados. Estarão as novas gerações portuguesas preparadas para conquistar o futuro? Infelizmente, não estão... Portugal não tem futuro. Com este texto dou início ao estudo da botânica.

Anexo: A minha campanha de sensibilização botânica dos portugueses começou no facebook e na página comunitária Eu Amo o Porto, onde escrevi: "Com as Descobertas Portugal teve todas as oportunidades para desenvolver a exploração geográfica da terra e a ciência natural, mas não as soube aproveitar: a brutalidade dos portugueses é genética. O povo português é arcaico e saloio. O 25 de Abril fez emergir a brutalidade dos portugueses, seres destituídos de inteligência cultivada e castrados de sensibilidade estética. Acho que foi durante a ditadura de Salazar que apareceu uma tentativa de educar a sensibilidade dos portugueses: os concursos dos jardins mais bonitos das estações ferroviárias. Hoje não há jardins: há porcos". Gostava de ver o Porto a liderar um programa de exportação de plantas e flores exóticas: a genética - aliada à tecnologia - permite fazer milagres. Mais: desejo o regresso de canteiros floridos à cidade do Porto, embora saiba que os portugueses são ladrões. Sim, roubam as plantas dos jardins públicos! As orquídeas adaptam-se bem ao clima do Porto. Ainda recentemente tive diversos vasos de orquídeas na varanda e elas floriam abundantemente todos os anos. Infelizmente, não consegui combater uma praga que as matou: agora só tenho orquídeas exóticas dentro de casa. E, neste momento, têm cachos de flores. Elas não gostam muito de sol directo, pelo menos no verão. Quanto às violetas africanas, não as tenho reproduzido, porque plantas e livros nem sempre se articulam bem. Para ter plantas saudáveis em casa, é necessário adaptar a própria casa: as plantas não gostam de estar sozinhas, isoladas umas das outras. Elas querem companhia para formar um micro-sistema ecológico dentro de casa. As plantas socializam umas com as outras. Se tiver espaço em casa, recomendo vasos comunais: misture plantas compatíveis num mesmo vaso e saiba conservar a humidade. Mas não ponha os corações unidos nesses vasos com outras plantas, porque o seu crescimento acaba por eliminar as outras plantas. Eles ocupam sozinhos um desses vasos e, mesmo assim, se estiver distraído, tentam conquistar o território dos vasos anexos.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Darwinismo Social, Racismo e Anti-semitismo

Human Brain
«Os progressos do hemisfério austral foram realizados pelo espírito filantrópico da nação inglesa. Um inglês não poderá deixar de sentir um enorme orgulho e uma profunda satisfação ao visitar estas longínquas colónias (Austrália e Nova Zelândia). Uma bandeira inglesa içada é garantia de prosperidade, riqueza, civilização.» (Charles Darwin)


Este será um texto extremamente irónico que deve ser lido com inteligência. Eu sou contra a ideologia igualitária dos direitos humanos, a qual é responsável pela decadência do Ocidente. Para levar a cabo a desconstrução dos direitos humanos, convém fazer uma nova leitura das teorias raciais, de modo a captar o seu momento de verdade. Embora o mundo tenha sido moldado pelo liberalismo desde finais do século XIX até aos nossos dias, o alvo da minha ironia não será o liberalismo impregnado pela ideologia socialdarwinista, mas a biofobia da esquerda alucinada. O momento de verdade das teorias raciais capta-se facilmente se o leitor pensar na actual divisão da Europa em duas regiões: a Europa do Sul, atrasada e mafiosa, e a Europa do Norte, desenvolvida e esclarecida. Esta divisão vai ao encontro da escala das raças estabelecida por Galton: os povos periféricos do continente europeu tendem a ser "inferiores" aos povos centrais. O facto de serem periféricos já testemunha a sua "inferioridade racial", agravada pela mestiçagem com povos semitas e negróides. Em Portugal, essa clivagem racial tende a acentuar-se à medida que vamos do Norte para o Sul periférico, onde a mestiçagem é mais evidente. Não adianta recorrer aos argumentos da igualdade e da solidariedade para tentar esconder aquilo que é evidente: os povos do sul da Europa não conseguem acompanhar o ritmo de desenvolvimento da Europa do Norte e, até mesmo quando foram potências colonizadoras, as suas colónias não alcançaram o brilho das colónias inglesas. Darwin limitou-se a constatar a evidência. Se olharmos para o mapa mundial do desenvolvimento, verificamos que os pólos de desenvolvimento mundial estão ou estiveram sob influência anglo-saxónica. Os ingleses levaram a civilização ocidental para fora das fronteiras europeias: USA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. A esquerda alucinada não esmorece diante da evidência, acusando os ingleses de terem "exterminado" os tasmanianos e os índios e elogiando a política de mestiçagem dos portugueses e dos espanhóis na América Latina. Porém, quando faz as suas reivindicações alucinadas, a esquerda esquece novamente a evidência: a mestiçagem não produziu colónias desenvolvidas. E, no caso português, as últimas colónias a conquistar a independência - Moçambique e Angola - eram pelo menos nessa altura mais desenvolvidas do que a velha metrópole atrasada e racialmente medíocre. Não há maneira de contornar a evidência: a teoria do desenvolvimento deve levar em conta factores raciais, étnicos e biológicos. 

Francis Galton e a aventura colonial inglesa. Não basta acusar uma teoria de ser racista, em nome dessa treta que são os direitos humanos, para a refutar, porque lá onde se revela o racismo reside um momento de verdade incontornável, que denuncia o carácter ideológico da própria crítica. Em 1869, Galton publicou a sua obra The Hereditary Genius, onde recorre ao esquema do seu primo Darwin para explicar a existência de raças hereditárias. Após ter definido as raças humanas por caracteres morfológicos - tamanho e forma do crânio, cor da pele, cor dos olhos, cor e forma dos cabelos - e por caracteres mentais ou culturais, Galton utiliza os caracteres físicos para determinar uma escala de valores entre as raças: no topo dessa escala, temos os Brancos, feitos biologicamente para conceber e dirigir, e nos lugares de baixo os Amarelos e sobretudo os Negros, feitos para obedecer e trabalhar. O mundo branco é, por sua vez, dividido numa série de povos hierarquizados, cujo topo é ocupado pelos ingleses. (:::/:::)

Vacher de Lapouge e o racismo moderno. Michael Jackson dizia que não era negro: era apenas uma pessoa que frequentava a praia para ficar mais morena. A negação das diferenças raciais conduz a ideias absurdas como esta de Michael Jackson. Não adianta querer tapar o sol com a peneira: as raças humanas são fenotipicamente visíveis e, como se sabe, um casal negro (genuíno) não gera filhos brancos e um casal branco (genuíno) não gera filhos negros. (Narrar aqui um acontecimento ocorrido no Porto no século XVI: uma mulher branca deu à luz um filho negro e o suposto pai branco deixou a mulher e reclamou a "prenda da noiva".) (:::/:::)

Gobineau e os pólos da selecção: Arianos e Semitas. Os ideólogos do nazismo são injustamente acusados de terem inventado o anti-semitismo quando, na verdade, este é muitíssimo antigo, tendo sido tematizado por Gobineau - Joseph Arthur, conde de Gobineau - no seu Essai sur l'Inégalité des Races Humaines, publicado em 1853. A partir de dados linguísticos e culturais, Gobineau descobriu a raça ariana, que viveu no Norte da Índia, no segundo milénio antes de Cristo. Eis aqui o epicentro privilegiado a partir do qual surgiram todas as civilizações: a chinesa, a hindu, a mediterrânica e a europeia. Os alemães são - segundo Gobineau - os descendentes mais puros da raça ariana. O valor de um povo depende directamente da quantidade de "genes arianos" que possui. Apesar de ter criado o chamado "mito ariano", Gobineau não foi um anti-semita. (:::/:::)

Em construção. J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A ideia das Humanidades no plural

Porto: Caminhos do Romântico
Chegou a hora de demolir a ideia de uma única humanidade. Há humanidades no plural, cada uma das quais com a sua própria história filogenética e cultural. Nos últimos textos, tenho omitido a ideia de cultura como processo de pseudo-especiação, mas deve-mos retomá-lo e reformulá-lo, de modo a mostrar as especi-ficidades de cada uma das humanidades existentes e da sua evolução cultural. É um erro fatal - o mais fatal de todos os erros - pensarmos a humanidade no singular, como se todos os homens pertencessem a uma única humanidade. No passado ainda recente, essa ideia levou-nos a classificar as sociedades em primitivas e civilizadas, como se todas elas pertencessem a um mesmo processo contínuo de evolução social e cultural. Porém, a verdade é que as sociedades primitivas não pertencem ao círculo de evolução da civilização ocidental: as nossas próprias sociedades arcaicas pertencem ao passado, mas a distinção que fazemos entre sociedades primitivas e sociedades civilizadas pertence ao presente, um presente que permanece igual a si próprio, apesar da difusão da ideologia igualitária. Não podemos abdicar de dizer a verdade para contribuir para a difusão de uma mentira que ameaça mergulhar o mundo na catástrofe. É urgente reformular a biologia das raças humanas, de modo a elaborar sociobiologias humanas particulares. (Os continentes estiveram isolados uns dos outros durante milhares e milhares de anos e as diferenciações culturais geraram barreiras etológicas que são refractárias aos cruzamentos entre pseudo-espécies. A hibridização não é futuro. Não é o racismo que gera barreiras; é a própria biologia que as gera. Qualquer cultura híbrida é decadente.) O fracasso da implantação da democracia liberal nos espaços ocupados por culturas não-ocidentais aponta nessa direcção. O discurso do racismo ou do etnocentrismo está gasto e já não convence ninguém: lá onde se iludem a violência predomina. Devemos ser corajosos e ousar dizer a verdade: a grande narrativa da humanidade unida é uma mentira. Precisamos pensar as bifurcações antropológicas e culturais, se quisermos pacificar a vida na Terra. Meus amigos, a minha missão é mostrar-vos o caminho da salvação.

Advertência. Muniram-me dos instrumentos necessários para reformular a biologia das raças humanas. O conceito de humanidades no plural não colide com a "unidade" da espécie Homo sapiens, embora acentue a relatividade dessa unidade. Em 1941, Julian Huxley propôs a substituição do termo raça pela expressão mais neutra de grupo étnico. Compreendo a pertinência desta sugestão, mas os dois conceitos referem-se a realidades diferentes, embora interligadas entre si. Tal como o usa, o conceito de grupo étnico está mais próximo da realidade que designo de humanidades no plural. Em princípio, aceito a definição de raça dada por Dunn e Dobzhansky (1946): as raças humanas como populações que diferem na frequência relativa de alguns dos seus genes. Este conceito permite pensar as raças não em termos de diferenças fenotípicas absolutas, mas em termos de diferenças relativas na distribuição de frequências de caracteres ou genes. O que interessa é compreender o mecanismo de raciação: os grupos humanos isolados estão - ou estiveram - sujeitos a processos de mudança evolutiva, nos quais entraram em jogo os seguintes factores: selecção natural, mutação, isolamento, oscilação genética, hibridação, selecção sexual e selecção social. Eu sou contra o racismo, isto é, contra a doutrina ideológica que usa as diferenças raciais para justificar e legitimar a dominação de uma raça sobre outras raças. No entanto, não podemos acusar uma pessoa de ser racista por não considerar os membros de outra raça eroticamente atractivos, por exemplo. Estou convencido de que o estudo biológico das raças humanas pode ajudar a dissolver muitos preconceitos negativos.

J Francisco Saraiva de Sousa 

Genes e Memes: Da biologia à cultura

Porto: Liceu Alexandre Herculano
«É tentador, para um biólogo, comparar a evolução das ideias à da biosfera. Porque, se o Reino abstracto (noosfera) transcende a biosfera mais ainda do que esta o universo não vivo, as ideias conservam certas propriedades dos organismos. Como estes, tendem a perpetuar a sua estrutura e a multiplicá-la; como estes, podem unir-se, recombinar, segregar o seu conteúdo; como estes, enfim, as ideias evoluem e, nesta evolução, a selecção, sem dúvida alguma, desempenha um grande papel. Não me aventurarei a propor uma teoria da selecção das ideias. Mas pode-se, pelo menos, tentar definir alguns dos principais factores que aí desempenham um papel. Essa selecção deve operar, necessariamente, a dois níveis: o do próprio espírito e o da função a realizar. /O valor de realização de uma ideia deve-se à modificação de comportamento que ele acarreta para o indivíduo ou para o grupo que o adopta. Aquela que conferir ao grupo humano que a fez sua maior coesão, mais ambição e confiança em si dar-lhe-á, por esse facto, um acréscimo de poder de expansão, assegurará a promoção da própria ideia. Este valor de promoção não tem uma relação necessária com a parte de verdade objectiva que a ideia pode comportar. A potente armadura que constitui para uma sociedade uma ideologia religiosa nada deve à sua estrutura em si mesma, mas ao facto de essa estrutura ser aceite, se impor. Por isso, só dificilmente se pode separar o poder de invasão de uma determinada ideia do seu poder de realizar uma determinada função. /O poder de invasão, em si, é bem mais difícil de analisar. Digamos que depende das estruturas preexistentes do espírito, entre os quais as ideias já vinculadas pela cultura, mas também, sem dúvida alguma, de certas estruturas inatas que, aliás, nos é bastante difícil identificar. Mas vê-se bem que as ideias dotadas de mais elevado poder de penetração são aquelas que explicam o homem, assegurando-lhe o seu lugar num destino imanente, no seio do qual a sua angústia se dissolva.» (Jacques Monod)

«Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles a quem são recusados os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante. Os pensamentos dominantes são apenas a expressão ideal das relações materiais dominantes concebidas sob a forma de ideias e, portanto, a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; dizendo de outro modo, são as ideias do seu domínio. Os indivíduos que constituem a classe dominante possuem entre outras coisas uma consciência, e é em consequência disso que pensam; na medida em que dominam enquanto classe e determinam uma época histórica em toda a sua extensão, é lógico que esses indivíduos dominem em todos os sentidos, que tenham, entre outras, uma posição dominante como seres pensantes, como produtores de ideias, que regulamentem a produção e a distribuição dos pensamentos da sua época; as suas ideias são, portanto, as ideias dominantes da sua época». (Karl Marx)

A teoria da selecção das ideias proposta por Jacques Monod sofreu uma alteração substancial depois de Althusser ter criticado o idealismo subjacente à sua primeira formulação na lição inaugural no Colégio de França. Quando analisei a lição inaugural de Monod, procurei distanciar-me da crítica de Althusser, porque já tinha identificado uma afinidade estrutural entre a teoria das ideias de Monod e a teoria da ideologia de Marx. Num texto anterior, fui mais longe quando afirmei que a teoria da ideologia de Marx é uma teoria selectiva. A teoria da selecção das ideias foi, portanto, formulada por Marx, em primeira mão e não por Darwin, como parece pensar estupidamente Daniel Dennett, o que facilita desde logo a integração do materialismo histórico no seio da teoria sintética da evolução, como se depreende facilmente do «confronto» dos dois textos apresentados em epígrafe. Não adianta acusarem-me de ser reducionista: eu sou cientista e é nessa qualidade que opero a integração do marxismo na teoria sintética da evolução, mesmo que para isso tenha de reformular o materialismo histórico em função das indicações metodológicas fornecidas noutros textos. Diante da fotografia do Liceu Alexandre Herculano, um aparelho ideológico de Estado que garante a transmissão da cultura, Althusser seria obrigado a recuar e a meditar para finalmente reconhecer que a teoria da selecção das ideias não é estranha ao marxismo. Porém, o objectivo deste texto não é voltar a Jacques Monod, mas dar início à crítica da teoria da evolução cultural de Richard Dawkins. Quando leu a versão inicial do capítulo XI de O Gene Egoísta de Dawkins (1976), Nicholas K. Humphrey resumiu a sua teoria dos memes nestes termos: «Os memes devem ser considerados como estruturas vivas, não apenas metaforicamente mas tecnicamente. Quando plantas um meme fértil na minha mente, parasitas literalmente o meu cérebro, transformando-o num veículo para a propagação do meme, exactamente como um vírus pode parasitar o mecanismo genético de uma célula hospedeira. E isto não é apenas uma maneira de falar - o meme, por exemplo, para "crença numa vida após a morte" é, de facto, realizado fisicamente, milhões de vezes, como uma estrutura nos sistemas nervosos dos homens, individualmente, por todo o mundo». A memética de Dawkins e a noologia de Monod partilham a ideia crucial de que as ideias ou memes, tal como os vírus, são seres capazes de se auto-reproduzir, desde que parasitem um organismo: tanto os vírus como as ideias transitam de um organismo para outros e fixam-se sobre um código genético ou um código cultural, para aí transduzir uma informação criativa ou letal. No entanto, as ideias distinguem-se dos vírus pelo facto de se unirem e se combinarem em sequências organizadas, para formar mitos, ideologias e sistemas teóricos, que colonizam os cérebros e as culturas, os seus dois ecossistemas. Ora, a ecologia das ideias não pode ser compreendida fora do quadro da teoria do materialismo histórico de Marx. Considero que a teoria da ideologia é uma das maiores descobertas científicas de Marx. Nenhuma outra teoria científica provocou tanta polémica como a teoria da ideologia proposta por Marx. Infelizmente, apesar da abundância de literatura sobre a ideologia, ainda não possuímos uma grande obra sobre a história da controvérsia filosófica em torno da teoria da ideologia de Marx, até porque os próprios marxistas nunca se entenderam a esse respeito. Com a formulação da teoria da ideologia, o mundo social e cultural nunca mais voltou a ser visto da mesma maneira: a teoria da ideologia fornece-nos as lentes e os instrumentos teóricos adequados para analisar cientificamente a realidade social e histórica, ao mesmo tempo que elucida a história do conhecimento científico na sua luta permanente contra as ideologias existentes. Graças a Marx, nós podemos analisar os obstáculos epistemológicos, ideológicos e sociais que Darwin teve de ultrapassar para elaborar a sua teoria da selecção natural, fazendo-nos compreender a razão de ser da sua longa demora de mais de vinte anos. Paul Ricoeur nomeou três mestres da suspeita, Marx, Nietzsche e Freud, mas destes três nomeados só um lançou a suspeita sobre toda a história do Ocidente: Karl Marx, cujo paradigma científico da história deve ser integrado na teoria sintética da evolução. (Só os que sofrem de distúrbios mentais continuam a ler Nietzsche ou mesmo Freud, duas figuras dispensáveis, mais a primeira do que a segunda, evidentemente!) Relendo a correspondência entre Marx e Darwin, apercebi-me de que as revoluções científicas que realizaram foram impulsionadas por um longo trabalho filosófico. Durante mais de vinte anos, Darwin trabalhou na sua própria filosofia materialista. Há um materialismo filosófico produzido por Darwin que ainda não foi seriamente estudado: ele encontra-se formulado nos seus cadernos M e N. Marx foi infinitamente mais corajoso do que Darwin. Mesmo sem possuir a fortuna do seu colega naturalista, Marx desafiou o poder estabelecido, sendo por isso expulso da Alemanha e privado de uma carreira profissional capaz de lhe garantir o sustento. As revoluções científicas operadas por Marx e Darwin eram perigosas por três razões: ambas as teorias - a teoria da selecção natural de Darwin e a teoria da história de Marx - afirmavam que a "evolução" não tem qualquer objectivo (1) e não é orientada no sentido de conduzir inevitavelmente a coisas mais elevadas (2), e aplicaram uma filosofia materialista consistente às suas interpretações da natureza e da sociedade, respectivamente (3). Julgo ouvir alguém a dizer que estou a esquecer o aspecto comunista do pensamento de Marx que parece emprestar uma orientação ou um sentido à história do homem. A minha posição é sobejamente conhecida: considero o comunismo como um elemento estranho ao corpo teórico do materialismo histórico. No entanto, apesar de não podermos encontrar um propósito na natureza e na história, podemos tentar defini-lo e, de certo modo, foi isso que fez Marx. Sempre achei que os comunistas eram demasiado vitorianos, porque essa associação ou identidade entre evolução e progresso é uma invenção ideológica da sociedade vitoriana. Herbert Spencer é o pai ideológico desta identidade entre evolução e progresso, usada para classificar os europeus brancos no topo da evolução orgânica e os povos que habitavam as suas colónias no fundo. A evolução biológica e a evolução histórica não têm propósito, não são progressivas e são materialistas. Althusser compreendeu isso quando afirmou que, para Marx, a história é um processo sem sujeito nem fim(s), e o mesmo pode ser dito em relação à "visão da vida" de Darwin. Num outro contexto que não é estranho ao darwinismo, como demonstrou Hans Jonas, Sartre definiu o homem como uma paixão inútil. Doravante, utilizarei esta expressão sartreana para caracterizar o triunfo de Marx e Darwin sobre a arrogância do homem que, acossado pela perigosa ideia da evolução, tentou ligar as ideias de evolução e de progresso para justificar o seu domínio sobre todas as espécies que habitam o nosso planeta e a dominação do homem sobre o homem. As revoluções científicas de Marx e Darwin demoliram o preconceito antropocêntrico em todas as suas versões, obrigando o homem a encarar-se como um produto da evolução biológica e histórica. Dos cadernos de notas M e N de Darwin retenho três parágrafos: «O amor da divindade, efeito da organização, ó materialista?! Por que é que o facto de ser o pensamento uma secreção do cérebro é mais maravilhoso do que o da gravidade ser uma propriedade da matéria? É a nossa arrogância, a nossa admiração por nós próprios. /Platão diz no Fédon que as nossas "ideias imaginárias" provêm da pré-existência da alma, e não podem ser derivadas da experiência - por pré-existência, entenda-se macacos. /Para evitar declarar quanto acredito no materialismo, dizer apenas que emoções, instintos, graus de talento, que são hereditários, o são porque o cérebro dos filhos se parece com o dos progenitores». Um dia será necessário escrever uma obra sobre a relação entre Marx e Darwin, de modo a demonstrar como eles produziram novas teorias científicas a partir de uma perspectiva materialista, cuja versão mais completa é a de Marx. Ela tem um nome: chama-se dialéctica materialista ou teoria crítica e o seu materialismo é pluralista.

Daniel Dennett (1995) desenvolveu a teoria dos memes de Dawkins, de modo a integrá-la completamente na genética das populações. Apesar da minha aversão natural à filosofia de Dennett, sou obrigado a reconhecer o seu contributo para a clarificação do mecanismo da evolução cultural: alguns dos seus conceitos podem ser retomados, reformulados e depurados dos seus elementos ideológicos neoliberais. Há uma grande diferença entre Dawkins e Dennett: Dawkins é um cientista honesto que procura contribuir para o conhecimento do mundo, trabalhando cooperativamente com os outros, enquanto Dennett é um ideólogo do neoliberalismo que se serve do darwinismo para justificar o status quo. Sempre que fala da estrutura dos filtros, Dennett denuncia inadvertidamente a má-fé que preside ao seu trabalho de elaboração teórica: ele omite tudo aquilo que não se enquadra na sua estratégia xenófoba de fazer do darwinismo a ideologia triunfante do mundo anglo-saxónico. Este comportamento subliminar revela que até mesmo na sua ignorância real ou fictícia Dennett sabe que intervém num campo de batalha cujas linhas de ataque foram definidas por Marx. A honestidade intelectual de Dawkins levou-o a escrever que «cada indivíduo tem a sua própria maneira de interpretar as ideias de Darwin», na certeza de que «muito do que Darwin disse, em detalhe, está errado». Deste modo quase premonitório, Dawkins defendeu-se antecipadamente do abuso que Dennett fará mais tarde da sua teoria, acusando-o de não ter sido suficientemente corajoso para sacar todas as suas consequências filosóficas: a ideia perigosa de Darwin mais não é do que o uso ideológico que dela fez Dennett para justificar a miséria presente, como se os vencedores financeiros fossem os mais aptos de todos os homens. Nem sequer Darwin nos seus piores momentos de inspiração afirmou uma tal blasfémia. Darwin sabia que pertencer à classe dominante não é sinónimo de possuir maior aptidão darwinista: o fenómeno da degenerescência das classes dominantes não lhe era estranho. A cegueira teórica de Dennett impede-o de ver que, ao atribuir a evolução da cultura capitalista à selecção natural, está a responsabilizá-la por nos conduzir à catástrofe total, ou seja, à destruição da biosfera. Ao redireccionar a minha agressividade contra a filosofia de Dennett, estou a tornar a minha mente mais receptiva ao diálogo produtivo com a teoria da evolução cultural de Dawkins. A minha mente está voluntariamente aberta à invasão dos memes de Dawkins, embora tenha um sistema de defesa - e a melhor defesa é o ataque preventivo! - que analisa em detalhe cada um desses novos invasores. A nossa herança genética fez das nossas mentes masculinas campos de batalha e é por isso que usamos abundantemente metáforas belicistas para compreender o mundo. Mas o facto de sermos mentes "assassinas" forjadas na e pela caça não nos impede de colaborar uns com os outros, sobretudo quando temos um adversário comum a abater. V. C. Wynne-Edwards desenvolveu em 1962 uma teoria do controle homeostático da população nos animais que leva a uma generalização de maior amplitude sobre a origem de todo o comportamento social: a partir do sistema territorial dos pássaros tomado como a primeira forma de organização social, Wynne-Edwards definiu a sociedade como um grupo de indivíduos que competem, através de métodos convencionais, por prémios também convencionais. Ou, por palavras mais simples, a sociedade é uma irmandade forjada pela rivalidade. Tanto Maynard Smith como Dawkins criticaram esta teoria de Wynne-Edwards pelo facto dela supor a selecção de grupo, mas ela não deixa por isso de ser extremamente sedutora, sobretudo quando interpreta o comportamento epideítico dos animais como um ajuntamento deliberado em bandos a fim de facilitar o recenseamento da população, de modo a restringir a taxa de natalidade no interesse do grupo.

A teoria do gene egoísta de Dawkins deriva das ideias sociobiológicas de R. L. Trivers, mas no que se refere à sua aplicação ao homem os dois sociobiólogos divergem significativamente entre si: em vez de aplicar a sociobiologia aos seres humanos, como faz Trivers, Dawkins prefere propor para eles a sua própria teoria da evolução cultural, em que os memes substituem os genes. Esta teoria foi exposta pela primeira vez no último capítulo de The Selfish Gene (1976), tendo sido delimitada - ou mesmo afunilada - noutras obras posteriores, tais como The Blind Watchmaker (1986) e The Extended Phenotype (1982). Dawkins brinda-nos com um resumo da sua teoria na obra O Relojoeiro Cego: «Em The Selfish Gene aventei a hipótese de que pudéssemos estar, neste momento, no limiar de um novo tipo de "tomada do poder" genético. Os replicadores de ADN construíram "máquinas de sobrevivência" para si mesmos - os corpos dos organismos vivos, incluindo nós mesmos. Como parte do seu equipamento, os corpos desenvolveram um computador de bordo - o cérebro. O cérebro desenvolveu a capacidade de comunicar com outros cérebros por meio da língua e das tradições culturais. Mas o novo meio de tradição cultural abre novas possibilidades às entidades auto-replicadoras. Os novos replicadores não são ADN e não são cristais de argila. São padrões de informação, que apenas prosperam no cérebro ou em produtos fabricados artificialmente pelo cérebro - livros, computadores, etc. Mas, dado que o cérebro, os livros e os computadores existem, estes novos replicadores, a que atribuí a designação de memes para os distinguir dos genes, podem propagar-se de cérebro para cérebro, de cérebro para livro, de livro para cérebro, de cérebro para computador, de computador para computador. À medida que se propagam podem modificar-se - mutam. E talvez os memes "mutantes" possam exercer os tipos de influência que aqui designei por "poder replicador". Não esquecer que este se refere a qualquer tipo de influência que afecte a probabilidade de propagação própria. A evolução sujeita à influência dos novos replicadores - evolução mémica - está ainda na infância. Manifesta-se nos fenómenos que designamos por evolução cultural. A evolução cultural processa-se a uma velocidade de uma ordem de grandeza muito superior à da evolução fundada no ADN, o que nos faz pensar ainda mais na ideia de "tomada do poder". E se um novo tipo de tomada do poder replicador se está a iniciar, é concebível que parta para tão longe que deixará muito para trás o ADN seu progenitor (e a argila sua antepassada remota, caso Cairns-Smith tenha razão). Se assim for, podemos estar certos de que os computadores estarão na vanguarda». Deixando de lado a tomada electrónica do poder, que pertence à ficção científica, convém acentuar que a teoria da evolução cultural de Dawkins assenta numa analogia entre evolução genética e evolução cultural, entre genes e memes. Tudo o que é especificamente humano pode ser resumido numa única palavra: cultura, cuja transmissão é análoga à transmissão genética, no sentido em que, apesar do seu carácter conservador, pode dar origem a um novo tipo de evolução. É certo que já encontramos fenómenos de transmissão cultural entre algumas espécies animais, como por exemplo o canto das aves, mas é a nossa espécie que mostra realmente o que a evolução cultural pode fazer: Dawkins defende que, para compreender a evolução cultural do homem, é preciso desprezar o gene como a única base das nossas ideias sobre a evolução, e procurar outros tipos de replicadores e outros tipos de evolução. Com a emergência do homem surgiu um novo tipo de replicador e um novo tipo de evolução. Dawkins deu-lhe o nome de meme, um substantivo que transmite a ideia de uma unidade de transmissão cultural ou de imitação: «"Mimeme" provém de uma raíz grega adequada, mas quero um monossílabo que soe um pouco como "gene". Espero que os meus amigos helenistas me perdoem se eu abreviar mimeme para meme. Se servir como consolo, pode-se, alternativamente, pensar que a palavra está relacionada a "memória" ou à palavra francesa même». Dawkins distancia-se da estratégia sociobiológica quando fala do fim do monopólio dos genes: «Por mais de três biliões de anos o ADN tem sido o único replicador digno de menção no mundo. Mas ele não mantém necessariamente esses direitos de monopólio para sempre. Sempre que surgirem condições nas quais um novo tipo de replicador possa fazer cópias de si mesmo, os novos replicadores tenderão a dominar e a iniciar um novo tipo de evolução própria. Quando essa nova evolução começar não terá, em nenhum sentido obrigatório, que se submeter à antiga. A evolução antiga de selecção de genes, produzindo cérebros, forneceu o "caldo" no qual os primeiros memes se originaram. Quando os memes auto-replicadores surgiram, o seu próprio tipo de evolução, muito mais rápido, teve início. Nós, biólogos, assimilamos a ideia de evolução genética tão profundamente que temos a tendência a esquecer que ela é apenas um dentre vários tipos possíveis de evolução». O âmbito de aplicação do darwinismo - confinado pelos sociobiólogos ao contexto limitado dos genes - é assim alargado até incluir a própria evolução cultural. A evolução por selecção natural ocorre sempre que existem três condições, a saber: variação, hereditariedade ou replicação, e aptidão diferencial. Os memes que habitam os cérebros ou outros produtos fabricados pelos cérebros replicam-se por imitação, usando como principal meio de transmissão cultural a linguagem humana, falada e escrita. As qualidades que determinam um elevado valor de sobrevivência entre os memes são idênticas às dos genes: longevidade, fecundidade e fidelidade de cópia. A longevidade é talvez a qualidade menos importante de uma cópia de um determinado meme: ela depende do meio em que está inscrita, com as cópias impressas a terem maior duração do que as cópias armazenadas no cérebro de uma pessoa. A fecundidade é mais importante do que a longevidade de cópias específicas. Assim, por exemplo, a fecundidade de uma ideia científica pode ser medida contando o número de vezes que ela é citada ou referida nas revistas científicas nos anos subsequentes. A sua grande difusão ao longo do tempo atesta o seu elevado valor de sobrevivência. Quanto à fidelidade de cópia, os memes não são, de forma alguma, replicadores de alta fidelidade, estando a sua transmissão sujeita à mutação contínua e à mistura. Uma aproximação entre a teoria dos memes de Dawkins e a teoria das ideias simples e compostas de John Locke ou David Hume seria produtiva, mas aqui basta dizer que Dawkins leva a analogia meme-gene mais longe para introduzir o conceito de complexo co-adaptado de memes que se origina no fundo mémico, de modo a distinguir unidades mémicas grandes e pequenas, tal como tinha feito com o complexo génico. Quando os componentes de um tal complexo mémico estão fortemente ligados entre si, formando uma entidade capaz de ser transmitida de um cérebro para outro cérebro, Dawkins considera ser conveniente juntá-los como um único meme. Assim por exemplo, durante a Idade Média, a doutrina da ameaça do fogo infernal aliou-se à ideia de Deus, para compelir eficientemente à obediência religiosa: as duas ideias reforçam-se reciprocamente, formando um complexo co-adaptado de memes, e cada uma delas ajuda a sobrevivência da outra no fundo de memes. Os complexos de memes co-adaptados evoluem da mesma maneira como os complexos de genes, e a selecção natural favorece os memes que exploram o seu ambiente cultural para vantagem própria. Este ambiente cultural contém outros memes que foram seleccionados ou que estão a ser seleccionados, entre os quais há competição. O fundo de memes tem os mesmos atributos de um complexo evolutivamente estável, que resiste à invasão de novos memes. A selecção natural favorece sempre estes complexos evolutivamente estáveis de memes, em detrimento dos memes isolados e separados. A analogia entre o complexo evolutivamente estável e a hegemonia de Gramsci é supreendente: os complexos co-adaptados de memes enquanto complexos evolutivamente estáveis são hegemónicos, no sentido marxista do termo. Dawkins pensa os genes e os memes como agentes conscientes intencionais, de modo a acentuar a ideia metafórica de que eles trabalham para a sua própria sobrevivência, mostrando-os a competir entre si na luta pela sobrevivência. A linguagem de propósitos é aqui um mero jogo metafórico de linguagem, porque é a selecção natural cega que faz com que eles se comportem como se fossem intencionais. O que interessa destacar é que os memes e os genes competem entre si de modo egoísta e implacável: o tempo - mais do que o espaço de armazenamento - constitui objecto de forte competição entre memes rivais. O meme que dominar a atenção de um cérebro humano deve fazê-lo à custa da eliminação dos memes rivais, e, se possível, tentar utilizar todos os meios de difusão e de transmissão disponíveis para cativar a atenção de um maior número de cérebros. Dawkins termina a sua exposição com a ideia de que os genes e os memes podem reforçar-se mutuamente ou mesmo entrar em conflito entre si, como sucede no caso do celibato. Este conceito de conflito entre genes e memes é uma ideia produtiva que merece ser pensada, na medida em que há a possibilidade objectiva da evolução cultural destruir as próprias condições necessárias à evolução e conservação da vida. Mas, enquanto houver vida inteligente no nosso planeta, o homem pode estar certo que deixa atrás de si duas coisas quando morrer: os genes e os memes. Os primeiros sobrevivem pelo menos em grandes proporções durante três gerações, ao passo que os segundos - se forem bem-sucedidos como os memes de Sócrates e Platão - poderão prosperar durante vários milénios, imortalizando os nossos nomes. Segundo Dawkins, copiando um meme tão antigo quanto o meme de Platão, devemos procurar a imortalidade não tanto na reprodução mas sobretudo no nosso contributo dado para o fundo de memes. Mas eis uma dificuldade: se uma característica cultural evoluiu da maneira como o fez simplesmente porque é vantajoso para ele própria, que interesse há em falar de imortalidade? A ideia de memes como partículas quase imateriais e potencialmente imortais não é a mais adequada para uma teoria científica da evolução cultural. Ao romper com a estratégia sociobiológica, Dawkins corre o risco de transformar a cultura num domínio supra-orgânico. Não se trata aqui da reentrada do idealismo cultural pela porta das traseiras, porque na verdade ele nunca chegou a ser expulso do seu seio pela teoria dos memes tal como a formulou Dawkins: a inscrição social dos memes nos aparelhos e nas práticas sociais é uma peça fundamental da teoria da evolução cultural. Não admira que a teoria dos memes de Dawkins tenha dado origem a uma "espécie de religião do meme" (Unweaving the Rainbow, 1998), cujo sumo-sacerdote é Daniel Dennett, para quem a consciência humana «é ela própria um enorme complexo de memes». Basta confrontar esta noção de Dennett com a ideia brilhante de Mikhail Bakhtin, segundo a qual «a consciência individual é um facto sócio-ideológico», para captar os contornos da ideologia nefasta que contamina todo o trabalho filosófico de Dennett, que, mesmo depois de ter eliminado a consciência individual, continua a professar um individualismo mémico, como se este pudesse explicar alguma coisa, logo ele que deve ser explicado a partir do meio ideológico e social.

A teoria da evolução mémica de Dawkins tem muitas fragilidades teóricas, a primeira das quais é a própria delimitação deste novo replicador que é o meme. Mas, para analisar estas fragilidades teóricas, convém dar o exemplo do meme para a ideia de Deus: «Não sabemos como ela se originou no "fundo" de memes. Provavelmente originou-se muitas vezes por "mutação" independente. De qualquer forma, ela é realmente muito antiga. Como se replica? Pela palavra escrita e falada, auxiliada pela música e arte sacras. Por que tem um valor de sobrevivência tão elevado? Lembre-se que "valor de sobrevivência" não significa aqui valor para um gene no "fundo", mas valor para um meme num "fundo" de memes. A pergunta significa: o que há na ideia de Deus que lhe dá estabilidade e penetração no ambiente cultural? O valor de sobrevivência do meme para Deus no "fundo" resulta da sua grande atracção psicológica. Ele fornece uma resposta superficialmente plausível para questões profundas e perturbadoras a respeito da existência. Ele sugere que as injustiças neste mundo talvez possam ser corrigidas no próximo. Os "braços eternos" oferecem uma protecção contra as nossas próprias deficiências, a qual, como o placebo do médico, não é menos eficiente por ser imaginária. Essas são algumas das razões pelas quais a ideia de Deus é copiada tão facilmente por gerações sucessivas de cérebros individuais. Deus existe, mesmo que apenas sob a forma de um meme com alto valor de sobrevivência ou de poder infectante no ambiente fornecido pela cultura humana». Dawkins não define o meme para a ideia de Deus, limitando-se a dizer que provavelmente surgiu por mutação independente em vários locais do mundo ao longo da história do homem. No entanto, quando procura explicar o seu valor de sobrevivência, isto é, a sua atracção psicológica, recorre a razões que foram dadas pela teoria da ideologia de Marx, sempre no pressuposto não-demonstrado da superioridade do conhecimento científico em relação ao conhecimento ideológico que define o complexo de memes co-adaptados que é o positivismo (conhecimento filosófico). Desgraçadamente, apesar dos esforços de várias gerações de pensadores marxistas, a teoria da ideologia de Marx permanece incompleta, sendo ameaçada internamente por uma bifurcação fatal. A minha hipótese de trabalho é a de que podemos completar a teoria da ideologia integrando-a na teoria sintética da evolução: os memes ou as ideias inscrevem-se em práticas sociais inseridas numa totalidade negativa, atravessada por contradições e conflitos sociais. Assim sendo, o valor de sobrevivência do meme para a ideia de Deus não é o mesmo para todos os homens no espaço e no tempo: a ideia de Deus até pode assegurar o lugar de todos os homens num destino imanente, apaziguando a sua angústia, como sugeriu Monod, mas o seu valor de sobrevivência é desigual em função da posição ocupada pelos indivíduos no processo de produção. O Deus dos proprietários dos meios de produção - o "deus" da opressão - é diferente do Deus daqueles que foram violentamente despojados dos mesmos - o "deus" da consolação escatológica ou o Deus da libertação efectiva, ou, sendo aparentemente o mesmo Deus, ele ajuda a reproduzir a formação social que explora e oprime a maioria da população a favor de uma minoria de aves de rapina. De certo modo, ao inscrevermos as ideias nas práticas e nas instituições sociais, somos levados a descobrir vários alelos rivais que competem pela ocupação da mesma fenda cromossómica: um exemplo disso reside na filosofia de Ernst Bloch, onde a teologia conduz à revolução através de sucessivas mutações. O Deus da libertação exerce maior atracção psicológica sobre os cérebros humanos do que o "deus" da opressão, e, no entanto, este último tende a dominar o seu alelo rival devido ao poder político efectivo que a sociedade antagónica lhe confere: um é dominante, o outro é recessivo ou, como dizem os marxistas, dominadoA competição entre memes é muito mais complexa do que pensa Dawkins. A teoria da ideologia permite levar mais longe a analogia entre genes e memes, dando-lhe um outro fundamento mais próximo da teoria da natureza humana elaborada pela sociobiologia. Dawkins rejeita a aplicação da sociobiologia aos seres humanos, abdicando assim da busca das vantagens biológicas dos memes e dos vários atributos da civilização. O seu darwinismo entusiasta implica libertar a teoria da evolução por selecção natural do seu confinamento ao contexto limitado dos genes: o princípio fundamental de que toda a vida evolui pela sobrevivência diferencial de entidades replicadoras é suficiente para garantir uma explicação darwinista tanto da evolução genética como da evolução cultural. De certo modo, Dawkins aproxima-se da concepção de Arnold Gehlen, segundo a qual o homem é, por natureza, um ser-de-cultura. Mas esta aproximação é mais aparente do que real, porque Gehlen procura elucidar a posição peculiar que a homem ocupa no reino animal, a partir da sua constituição biológica específica. A antropologia filosófica de Gehlen foi retomada por Peter Berger e Thomas Luckmann para mostrar que o Homo sapiens é sempre homo socius: a especificidade humana aparece assim ligada ao reino social e não ao ser humano solitário. A teoria dos memes só pode ser compreendida em articulação com a teoria marxista da sociedade e da história: a vantagem dos memes é fundamentalmente vantagem social. O livro de Dawkins termina com estas palavras: «Somos construídos como máquinas génicas e cultivados como máquinas mémicas, mas temos o poder de nos revoltarmos contra os nossos criadores. Somente nós, na Terra, podemos rebelar-nos contra a tirania dos replicadores egoístas». Quando li pela primeira vez o livro de Dawkins, anotei em rodapé da página: a teoria de Dawkins possui um trunfo em relação à teoria sociobiológica de Wilson - não anula as ciências sociais. Hoje sou levado a lamentar o facto dela não ter conseguido aprofundar a integração das ciências sociais na nova síntese. O optimismo de Dawkins é eclipsado por aquilo a que Wilson chamou a necessidade humana de acreditar: «os homens preferem crer a saber». Edward Wilson definiu o marxismo como «uma sociobiologia sem biologia». De facto, os marxistas privaram o materialismo histórico da sua base na ciência natural, mais precisamente na biologia, esquecendo que há na obra de Marx uma concepção latente da ideologia descrita em termos de "ideias fixas", "ilusões", "espíritos" ou "fantasmas" que circulam pela sociedade para despertar nos seus membros superstições e preconceitos que bloqueiam o desenvolvimento social. Este cenário de indivíduos prisioneiros de imagens e expressões do passado só pode ser explicado pela biologia, isto é, pelo conjunto de trajectórias evolutivas cujo pleno ordenamento está limitado pelas regras genéticas da natureza humana. A natureza humana é uma mistura de adaptações genéticas especiais a um meio ambiente que, em grande medida, já desapareceu, o mundo dos caçadores-recolectores da Idade Glacial. A evolução cultural não é linear: nem a filosofia substituiu a religião, nem a ciência eliminou a metafísica. Nos nossos dias indigentes, a mitologia renasce, ameaçando o destino da filosofia e da ciência.

Advertência. Estou a abordar um problema extremamente complexo e difícil, para a resolução do qual ainda não temos todos os instrumentos científicos adequados. Penso que estamos no limite do projecto científico: a atracção pela tecnociência implica precisamente o esgotamento do programa científico. A dissolução da ciência na estrutura da tecnociência é o triunfo total da racionalidade instrumental. Infelizmente, o pensamento de esquerda produzido nas últimas décadas do século XX é uma espécie de suicídio. Para revitalizar a ciência e a filosofia - a sua aliança, é necessário queimar toda essa literatura que corrompe o espírito humano. Devemos ser ultra-selectivos nas leituras que fazemos: não vale a pena ler filósofos e literatos que intoxicam as mentes jovens com palermices suicidas. Os nossos problemas surgiram no século XIX. Daí a necessidade de fazer um ajuste de contas filosófico com o pensamento das suas grandes figuras intelectuais, entre as quais destaco Marx e Darwin. Marx era infinitamente mais optimista do que Darwin, embora nunca tenha excluído a possibilidade de regressão. Paradoxalmente, na era da educação e da comunicação generalizadas a mente humana regrediu. Se destruíssemos as estruturas que ainda suportam a civilização, a humanidade recuaria até à pré-história: a semente da igualdade institucionalizada produz regressão mental e cognitiva. A natureza não produz todos os homens iguais e, sempre que se tenta igualar todos, pelo menos no espírito das instituições sociais, o resultado é a regressão. É impossível conservar a civilização quando todos os homens se iludem: o pensamento de muitos é a catástrofe civilizacional. A essência do totalitarismo reside neste efeito de manada. Não estou seguro do sucesso deste empreendimento de fusão das teorias de Marx e Darwin: a vitória da estupidez humana fechou as portas ao futuro. Vivemos mergulhados na escuridão total. Ontem fui confrontado com uma versão da crise exposta por agentes da extrema-direita que responsabilizam a democracia pela situação obscura vigente. Embora tenha revelado outras conexões para a explicar, senti-me incapaz de fazer uma defesa da democracia em abstracto. Neste campo de batalha, a extrema-direita também tem os seus argumentos de peso. A esquerda converteu-se efectivamente em lixeira, tendo destruído tudo aquilo em que tocou, a começar desde logo pela educação. O ódio da esquerda pela biologia é absolutamente patológico: a esquerda deixou de estar ao serviço da vida quando se aliou às forças da destruição. A esquerda alucinada que se manifesta por esse mundo fora é de tal modo amiga da amputação que, para abolir a diferença biológica, está pronta para castrar os homens. O carácter regressivo da esquerda revela-se neste desejo de regressar ao indiferenciado. Uma noologia bem construída permite fundar uma patologia noológica, capaz de identificar as doenças do espírito humano, de as tratar e de as eliminar: há ideias letais que devem ser eliminadas. De certo modo, o mundo cerebral contemporâneo foi contagiado por uma terrível epidemia noológica que parasita sobretudo os cérebros mais indigentes e atrofiados. Compreendo a revolta dos extremistas de direita: ela é a voz da revolta da natureza contra a acção irracional do homem. Precisamos de uma nova teoria política. Precisamos acima de tudo de cérebros inteligentes e cultos, capazes de produzir as teorias de que necessitamos para salvar a humanidade e o mundo.

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Futebol: a válvula dos impulsos homo-eróticos


Ontem foi um dia divertido: uns amigos alemães de esquerda socialista partilharam comigo estas e muitas outras imagens dos rituais futebolísticos. Foi uma oportunidade para rever a teoria da tribo do futebol de Desmond Morris e de lhe dar um conteúdo mais sexual: o futebol como cópula gay ritualizada no campo e exteriorizada algures nos bastidores. Penso que a teoria da natureza homossexual das relações sociais proposta por Lévi-Strauss e retomada por Luc de Heusch, para já não falar de Lionel Tiger e Robin Fox, pode ser desenvolvida a partir do paradigma do futebol ou mesmo do exército e de outras instituições masculinas: a rigidez das sexualidades de género masculino é hoje um conceito amachucado. As sexualidades masculinas não são tão rígidas como pensávamos: a fluidez que verificamos nos nossos dias reconduz ao núcleo homo-erótico. Não bastar dar um nome: "homens que fazem sexo com outros homens"; é preciso explicar este comportamento e revelar o seu núcleo homo-erótico. Os chimpanzés e outros macacos fornecem excelentes modelos animais para compreender a natureza homossexual das relações sociais humanas. A libertação das mulheres produziu efeitos estranhos na sociedade: desvalorizou o corpo feminino e sobrevalorizou o corpo masculino, quebrando o tabu homossexual. (Um efeito perverso pode ser o desejo de auto-amputação e a erotização do membro amputado!) Os homens de hoje fazem aquilo que os homens de ontem desejavam fazer: "curtem a sua própria masculinidade". Este comportamento homo-erótico está presente em muitas sociedades arcaicas, onde a iniciação permite a prática institucional de relações homossexuais. A homossexualidade institucionalizada não é apenas uma invenção indo-europeia, bem exemplificada no caso grego (Bernard Sergent, K. J. Dover), mas uma prática presente nas mais diversas áreas culturais (G. Herdt, R. C. Kirkpatrick), bem como nas nossas instituições masculinas totais. Não sei se desejo retomar a minha investigação sobre determinação sexual e diferenciação sexual do cérebro e do comportamento: prefiro explorar outras áreas do conhecimento, embora reconheça a importância desta área da pesquisa sexual. Escusado será dizer que, ao fazer estas observações, estou a tentar mostrar que o que é surpreendente não é a homossexualidade mas a própria heterossexualidade. Ou seja, estou a problematizar a própria heterossexualidade. Quando realizei a minha investigação estava consciente disso, mas não soube dar-lhe expressão. Afinal, por que os homens são heterossexuais? Não estará o sucesso do futebol ligado à sua natureza homossexual? Não será a tribo do futebol uma tribo gay que revive nos nossos dias os rituais da caça ancestral? Ontem, quando os portugueses festejavam os golos do Cristiano Ronaldo, olhei-os de outra forma: vi que eles lá no fundo de si próprios eram e são "paneleiros". Depois dei-me ao trabalho de observar atentamente os sites nórdicos "Anti-Cristiano": o que observei? Observei que os nórdicos redescobriram o facto do "paneleiro" ser uma figura latina. As amostragens americanas já levam em conta esta classificação. Compreende-se agora a razão que leva os homens latinos a mascarar-se de prostitutas nos cortejos carnavalescos: eles são "travecas" exímios que aproveitam o Carnaval para dar expressão à mulher de má-vida que habita neles. (A nossa aliança - ego-alemães - é estritamente política: derrubar as políticas de direita da chanceler!)

J Francisco Saraiva de Sousa

Força Portooooooo Gal!

A verdadeira bandeira de Portugal

Esta imagem foi sacada do Facebook - da página comunitária Quantos Portistas Somos? Ela traduz realmente a verdade sobre Portugal, embora o verde e o vermelho sejam forças de bloqueio. Quando criei a página Eu Amo o Porto, alguém atacou os portuenses e os portistas. Eu não respondi porque não perco tempo a conversar com atrasados mentais que afundam o país na lama. Se eles tivessem alguma capacidade de assimilação cognitiva, abdicavam de usar a designação de "portooooo-gueses"! É que foi o Porto que deu nome a Portugal. Só há uma maneira adequada de reagir: esboçar um sorriso de desprezo.

J Francisco Saraiva de Sousa